Renegando o Passado

Magistrado / arnaldocperes@hotmail.com


O trágico acidente que resultou na morte do ministro Teori Zavascki e mais quatro pessoas não apenas abalou o Brasil, mas trouxe dúvidas e incertezas sobre o futuro da maior operação de combate a corrupção do país. Cabia a ele como relator, conduzir os inquéritos envolvendo quase uma centena de políticos com foro privilegiado e a homologação das delações premiadas de 77 executivos da Odebrecht.

Os fatos são evidentes e inquestionáveis. Os graves acontecimentos e as denúncias que abalam atualmente a nossa sereníssima República revelam uma grande contradição, ou seja, a existência de um visível descompasso entre um país de 200 milhões de habitantes, em franco desenvolvimento econômico, uma sociedade em processo de modernização e o atraso das instituições políticas que não conseguem acompanhar os novos tempos.

Não bastassem tantos parlamentares envolvidos em desvios de milhões da nação, além disso, cenas lamentáveis de agressões, ofensas e ameaças mostradas frequentemente pela TV, são de fato o golpe de misericórdia na imagem do Congresso que há muito já não é boa. Toda essa roubalheira, o permanente assalto aos cofres públicos, apenas mostram que o velho e conhecido culto subdesenvolvido da inexistência de pecado ao Sul do Equador cedeu definitivamente o lugar a um quadro de arcaísmo político, com o sistemático desrespeito à lei, à moral e aos bons costumes.

Infelizmente, figuras como os senadores Sarney, Jader Barbalho e os dois membros da casta política alagoana, Renan Calheiros e Collor de Melo, ainda aparecem no cenário nacional como os remanescentes mais retrógrados e prepotentes de um Brasil rural que há muito ficou para trás. São eles os últimos representantes de uma cultura predatória gerada no mandonismo, na parentela, no nepotismo e na política do favor. Métodos e atitudes totalmente ultrapassados que hoje a opinião pública já não aceita mais. Contudo, teimam mesmo assim, em continuar num estilo de vida pública ainda própria dos grotões mais atrasados, perdidos e esquecidos dos nossos imensos sertões.

Ao longo de quase duzentos anos de existência, o Congresso tem sido o centro dos acontecimentos políticos do país. Mas, convenhamos, hoje vive um dos momentos mais críticos de sua história. E isso tudo é triste quando se sabe que no passado também enfrentou situações difíceis em plena ditadura e muitos episódios de bravura que o engrandeceram perante a sociedade.

Por isso, mais do que nunca é preciso que volte a ter o respeito da nação como antes, porque sem credibilidade gera-se sempre um perigoso sentimento de incerteza e perplexidade. Afinal, como lembrava Churchill, a pior democracia ainda é melhor do que qualquer outro tipo de regime arbitrário, mesmo que às vezes a História nos surpreenda com suas rupturas inevitáveis.

A crise ética que hoje assola de forma generalizada a política nacional já chegou aos limites de tolerância do povo, como mostram, à exaustão, diariamente os protestos nas redes sociais. Mas, antes e acima de tudo, ela atinge a nós mesmos como cidadãos que desejam ver um país diferente, distante da República dos escândalos e do escárnio, dos desvios de bens públicos, agora não mais de milhões, mas de bilhões de dólares, como vem sendo revelado pela operação Lava Jato e as delações premiadas.

Até porque, vale lembrar, a persistência de métodos arcaicos e primitivos na gestão da coisa pública é extremamente perigosa, sobretudo porque pode, quem sabe, nos levar de volta a um passado tenebroso de triste memória, como já aconteceu antes.