Abrigo LGBTI acolhe venezuelanas em Manaus

O abrigo é coordenado pela ONG Manifesta LGBTI +, com o apoio da Agência da ONU para Refugiados (Acnur) no Brasil e parceiros

Da Redação / redacao@diarioam.com.br

Manaus – A Casa Miga, um abrigo para pessoas LGBTI na cidade de Manaus, está acolhendo mulheres venezuelanas que deixaram o país de origem fugindo da crise que atinge o local. Ao todo, seis mulheres venezuelanas estão vivendo na residência localizada na região central de Manaus. O abrigo é coordenado pela ONG Manifesta LGBTI +, com o apoio da Agência da ONU para Refugiados (Acnur) no Brasil e parceiros. O grupo é composto por dois casais e duas solteiras. As informações são da Acnur.

Forçadas a deixar seu país devido à insegurança, violência e dificuldades sócio-econômicas, estas seis mulheres venezuelanas chegaram ao Brasil no início deste ano e se estabeleceram inicialmente em Boa Vista (RR). Nem todas se conheciam da Venezuela, mas rapidamente formaram um grupo coeso na praça onde coincidentemente se instalaram – e onde viveram por três meses antes de serem encaminhadas a um dos abrigos públicos para solicitantes de refúgio e migrantes vindos da Venezuela, mantidos pelo governo federal.

“Na Venezuela, não nos sentíamos protegidas. Havia muito preconceito e não podíamos contar com ajuda em agressões preconceituosas ou xingamentos. No Brasil, ouvimos da própria polícia uma palestra sobre a lei de combate à violência contra mulheres e sabemos que existem políticas públicas de saúde para a população LGBTI”, afirma uma das seis mulheres, que não tiveram os nomes revelados por segurança.

A Casa Miga está acolhendo mulheres venezuelanas. (Foto: João Machado/Acnur Divulgação)

Ainda em Boa Vista, no abrigo para o qual foram levadas, foram informadas sobre o processo de interiorização, implementado pelo governo federal com o apoio do Acnur e de outras agências da ONU para realocar venezuelanos em outras cidades do País com melhores perspectivas de integração. E optaram por Manaus.

Ao chegarem na capital amazonense a bordo de um avião da Força Aérea Brasileira (FAB), o grupo foi alojado em um dos abrigos públicos da cidade. Mas esta ainda não seria uma solução para elas, que passaram a ser discriminadas por outros venezuelanos no local. “Diziam que éramos um mau exemplo para as crianças e as famílias. Assim, pedimos ao Acnur para sair de lá”, conta outra venezuelana moradora da Casa Miga. “Temíamos criar algum conflito com os demais abrigados e queríamos um lugar onde pudéssemos nos sentir bem”, completa.

A opção da Casa Miga foi então considerada, uma vez que a ONG Manifesta é conhecida por promover os direitos da população LGBTI na esfera municipal e estadual e abrigar jovens de Manaus expulsos de casa por causa de sua orientação sexual e de gênero.

“Com o apoio de nossos parceiros, já tinhamos alugado o espaço. E com um financiamento colaborativo e doações pontuais, inauguramos a Casa Miga e oferecemos as vagas para este grupo especial”, conta Gabriel Mota, fundador e presidente da ONG.

Por meio de um projeto financiado pela União Europeia por meio do seu Instrumento de Contribuição para a Estabilidade e a Paz (IcSP), a Acnur apoiou a montagem do abrigo doando cama, colchões, ventiladores, máquina de lavar roupa e uma televisão. Entre seus objetivos, o IcSP visa melhorar o ambiente de proteção para venezuelanos no Brasil e contribuir para uma convivência mais pacífica desta população nas cidades de acolhida.

Discriminação

Para a assistente de Proteção do escritório da Acnur em Manaus, Juliana Serra, pessoas refugiadas LGBTI enfrentam uma discriminação adicional devido à sua orientação sexual ou identidade de gênero e têm dificuldades para além daquelas que os demais refugiados vivenciam. “Neste contexto, a Casa Miga surge como uma resposta do Acnur para que pessoas LGBTI possam recomeçar suas vidas, entender o contexto do País onde estão inseridas e potencializar o exercício dos seus direitos”, argumenta Juliana. “Aqui, nos sentimos em casa. Temos nosso espaço. Nos coordenamos para fazer as refeições e cumprimos regras de convivência”, afirma uma das venezuelanas.

Com todos os documentos em dia – inclusive a solicitação de refúgio, a carteira de trabalho e as vacinas – elas planejam se estabelecer no Brasil e trazer os familiares que ficaram na Venezuela. Entre elas, há duas mães, cujos filhos ficaram sob os cuidados dos avós.

Refugiados

Estima-se que 2,6 milhões de venezuelanos estão vivendo fora do país devido a uma complexa situação política e sócio-econômica. São várias as razões que levam estas pessoas a deixar seu país, entre elas a insegurança e a violência, redução na renda e dificuldade em obter comida, remédios e serviços essenciais.

Segundo dados do governo federal, mais de 65 mil venezuelanos já solicitaram refúgio no Brasil. Outros 19 mil solicitaram residência temporária.

Em Manaus, já são mais de 8.800 solicitações feitas por venezuelanos desde 2017 – até agosto deste ano. Cerca de 600 pessoas estão acolhidas em abrigos da cidade, sendo que pelo menos 180 chegaram à cidade por meio da estratégia de interiorização.