Instituto inicia abate de 1,2 mil jacarés na Reserva Mamirauá, no interior do AM

Durante coletiva de imprensa, realizada na tarde desta quarta (20), o presidente do Ipaam e secretário da Sema, Marcelo Dutra, assinou a licença para o funcionamento do abatedouro

Bruno Mazieri

Manaus – A partir desta quarta-feira (20), a Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá, no município de Uarini (a 565 quilômetros a oeste de Manaus), passa a contar com um entreposto flutuante para o abate e manejo de jacarés-açu para comercialização no mercado local. A licença foi assinada pelo presidente do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) e titular da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), Marcelo Dutra, que adiantou que estão sendo feitos estudos também para o manejo de pacas e queixadas.

Na oportunidade, Dutra divulgou dados científicos que mostram o crescimento de 580% do jacaré-açu, somente na RDS Mamirauá, desde que a Lei Federal Nº 5.197 de 1967 proibiu a caça da espécie. “Desde a década de 1960 até hoje, houve um aumento de quase 600% do jacaré, somente naquela reserva. Uma média de 447 animais por quilômetro, nas margens daquele rio”, explicou.

Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá, no município de Uarini, passa a contar com um entreposto flutuante para o abate e manejo de jacarés-açu. (Foto: Divulgação)

O secretário ressaltou que, atualmente, o Amazonas é o maior produtor de carne salgada e seca de jacaré, no entanto, não tem origem licenciada e nem sustentável. “Nós não vamos dizer que não se caça jacaré porque em todos os cantos deste Estado as pessoas caçam jacarés, faz parte dos hábitos alimentares de algumas comunidades. Mas isso não tem sido feito com ordenamento que é o que queremos fazer a partir de agora”, disse ele.

Ainda durante a divulgação dos dados, o secretário lembrou que além da RDS Mamirauá, o manejo do jacaré também pode ser feito nas RDSs Piranha (Manacapuru) e Piagaçu Purus (Beruri) e na Reserva Extrativista (RESEX) do Médio Juruá (Carauari), beneficiando perto de cinco mil famílias. Mas para que o manejo seja feito de forma correta, Dutra revelou que são necessários requisitos.

“É preciso que seja feito em unidade de conservação de uso sustentável, não podendo ser em outro canto, porque ainda não temos a alteração do código de fauna brasileiro. É necessário também estudo técnico e científico que aponte para que seja feito o manejo, a partir de densidade, abundância e frequência. A organização tem que ser comunitária, apesar de que precisa do braço da pesquisa e do fomento governamental, e uma estrutura de abate que permita um Serviço de Inspeção Sanitária”, comentou.

Atualmente, de acordo com a Sema, só serão liberados o manejo de 1.200 animais na RDS Mamirauá, mas que a área possui uma potencialidade de até 100 mil animais, por ano. “Ou seja, neste primeiro ano, vamos mexer em apenas 1% da potencialidade do local. No total, o Estado possui uma capacidade de manejo de 125 mil animais, por ano, somente na áreas de RDSs e RESEX”.

O diretor técnico-científico do Instituto Mamirauá, biólogo João Valsecchi, contou que a solicitação do manejo do jacaré partiu da própria população. “Existe uma demanda local pelo manejo e temos trabalhado com a parte científica da questão. Primeiro provamos que é possível manejar populações naturais e existem animais suficientes para estabelecer cotas sustentáveis para retirada. Atendendo a legislação, temos trabalhado com a questão sanitária do abate”.

Ainda sobre um possível desiquilíbrio ambiental com o crescimento de jacarés naquela região, o biólogo descartou qualquer possibilidade. “Se não houver manejo, se não houver retirada, a população de jacarés não cresce além do natural. Existe um discurso, uma crença local, de que existe uma superpopulação de jacaré. Na verdade, a população de jacaré está se recuperando para o estado natural, pois ela foi muito caçada no passado, na época da caça de peles, e tínhamos populações muito pequenas por conta do impacto gerado naquela época e agora estão se recuperando. Não tem problema de superpopulação e nenhum impacto caso o manejo não aconteça”, finalizou ele.