Por dia, Manaus desperdiça 95 toneladas de alimentos

Lata do Lixo Conforme a Semulsp, somente a Feira da Manaus Moderna descarta 7,6 toneladas de lixo, por dia. O coletor de lixo André Santos, revela que trabalha no local há dois anos, e todos os dias observa a rotina do desperdício de alimentos

Gisele Rodrigues / Redacao@diarioam.com.br

Foto: Sandro Pereira

Manaus – Cerca de 95 toneladas de alimentos de 40 feiras de Manaus são jogados no lixo, todos os dias, segundo a Secretaria Municipal de Limpeza (Semulsp). Para o funcionário da empresa que realiza a coleta de lixo, André Santos, “o que é lixo para uns, para outros é luxo”. Os números mostram que o lixeiro tem razão, enquanto, mais de 2 mil toneladas de alimentos são desprezados por mês nas feiras, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 204 mil pessoas com renda mensal média de R$ 167 estão abaixo da linha da pobreza no Estado.

À espera dos alimentos que serão desprezados, a moradora de rua Sideris de Oliveira dos Santos, sustenta e alimenta a ela e a mãe com as sobras da Feira da Manaus Moderna, no Centro da capital. Tomates, pepinos, uvas, mamões e até feijão de corda foram recolhidos pela mulher na última segunda-feira (27). Em cerca de 30 minutos, pelos menos, cinco pessoas interceptaram os alimentos que seriam jogados no caminhão de lixo.

“Pego do lixo, porque não tenho de onde tirar. Não tenho dinheiro para comer e eu tenho a minha mãe que é doente, ela precisa de mim, não posso deixar ela só”, disse a moradora.

Ela conta que há dois meses mora na calçada, próximo do local de onde o caminhão de lixo para pegar os alimentos antes que sejam jogados fora. Com o que consegue retirar de bom, Sideris revende o que julga estar em boa qualidade e troca por refeições.

Coleta

Conforme a Semulsp, somente a Feira da Manaus Moderna descarta 7,6 toneladas  de lixo, por dia. O coletor de lixo revela que trabalha no local há dois anos, e todos os dias observa a rotina do desperdício de alimentos.

“Muitos feirantes ainda doam, os moradores de rua passam lá e eles dão, tomate, pepino. Mas tem dono de banca que vem aqui e tira foto para ver se foi mesmo para o caminhão de lixo. Porque antes de eles jogarem a gente não interfere, mas depois que cai no caminhão não podemos deixar ninguém pegar”, disse.

Observando o descarte de lixo, a doméstica Raimunda Alves, 66, ficou impressionada com a quantidade de alimentos – em bom estado – que estavam sendo desprezados. Para ela, grande parte das frutas e verduras poderiam ser doados.

“Estraga muito, mas eles ainda sovinam. Não entendo por que não dão para quem precisa antes de estragar, ainda mais agora que as coisas estão tão difíceis. Para não vender mais barato eles preferem estragar e jogar fora. Na minha opinião, está faltando amor ao próximo”, avaliou.

O feirante Manoel Messias, 49, chegou com duas caixas cheias de mamões, grande parte verdes, para jogar no caminhão da coleta de lixo. Ao ser questionado do motivo para desaproveitar a fruta, Messias afirmou que, como um novo carregamento chega nesta segunda-feira (3), ele precisava de espaço e, por isso, estava desprezando os alimentos. Segundo ele, o prejuízo que foi levado pelo caminhão de lixo, estava avaliado em cerca de R$ 400.

“Não tem outro jeito, a gente não pode fazer nada”, afirmou o feirante. A campeã em desperdício é a Feira da Banana, também, no Centro de Manaus. Segundo a Semulsp, são 8,6 toneladas, por dia. Em média, 258 toneladas por mês, mais de 3 mil toneladas por ano de bananas, melancias, laranjas, que poderiam servir de alimento para outras pessoas.

Reaproveitamento

De acordo com o peixeiro Martin da Costa, 47, desperdício na Feira da Panair é pequeno. Segundo ele, após a modernização na forma de tratamento do peixe, nada se descarta. Partes antes desprezadas pelos consumidores, agora, segundo Costa, são salgadas e comercializadas.

“Não se desperdiça mais nada. Esses ossos aqui, que geralmente ninguém quer, eu salgo e vendo também. Hoje, vende tudo até a escama do peixe. A parte da espinha o pessoal passa no moedor e faz picadinho de tambaqui”, afirmou.

Mesmo assim, a feira ocupa o segundo lugar, de acordo com a Semulsp, entre as feiras com maior recolhimento de lixo, desprezando cerca de sete toneladas diárias.

Para tentar solucionar o destino, a feirante Izabel dos Santos, 48, repassa os alimentos que estão maduros ou perdendo a qualidade do consumo para o preparo de comidas na cozinha comunitária da Prefeitura de Manaus, localizada atrás da feira.

“Às vezes, aquele alimento que o cliente não quer, só porque está meio amassadinho ou murcho eu doou para a cozinha comunitária. Ou então levo para casa para reaproveitar”, disse.

Fecham a lista das feiras com maior recolhimento de lixo, a Feira da Manaus Moderna, que ocupa o terceiro. Seguida da Feira do Mercado Adolpho Lisboa, com três toneladas diárias, e a Feira da Betânia, com a mesma quantidade.