Da necessidade ao bronze, borbense é 3º no Brasileiro

Diogo Rocha / Diário do Amazonas


Manaus – O caminho até a medalha de bronze do amazonense Carlos Eduardo Ferreira, de 13 anos, no Campeonato Brasileiro de Caratê, realizado em São Paulo, no final de semana passado, foi longo e cheio de superação. Tanto quanto as diversas vezes que o jovem carateca deixou a cidade natal, Borba (a 151 quilômetros ao sul de Manaus), para competir em outros Estados, como das regiões Norte, Nordeste e Sudeste.

Terceiro colocado no Katá (luta imaginária) nesta etapa final do Brasileiro, pela Categoria Especial (de 12 e 13 anos), o faixa marrom Carlos Eduardo treina em um projeto social, em Borba, há quatro anos. Idealizado e executado pela mãe dele, Aucileia de Almeida Costa, o projeto da academia ‘Fênix de Karatê’ recebe apoio da prefeitura local, desde 2014, e, atualmente, ensina mais de 108 crianças e adolescentes, de graça.

“Existe muito apoio da prefeitura de Borba, como Bolsa Atleta Municipal, por isso nossos atletas não ficam escondidos e competem fora. O problema é que o Estado não dá nenhum suporte também”, lamentou ‘dona’ Aucileia, que ao lado da amiga da família, a técnica de Katá do projeto, Rosely Pantoja, 29, acumula as funções de mãe protetora e técnica do filho único para as provas de Kumitê (luta em si).

Nas competições longe de Borba, a delegação costuma ficar hospedada na Vila Olímpica de Manaus. Mas desde que voltaram de São Paulo, os dois lutadores e as treinadoras precisaram dormir no tatame de uma academia, na capital, por três dias, para aguardar a viagem de retorno ao município.

A semente para o futuro projeto germinar partiu de uma agressão sofrida por Carlos Eduardo, no colégio. Ele voltou para casa com o rosto machucado e a mãe decidiu colocar o filho para aprender caratê como defesa pessoal. Mas ela acabou despertando o interesse pela arte marcial.

“No primeiro dia de aula, gostei também do esporte e aprendemos juntos caratê, eu e o meu filho. Hoje, como já sou faixa preta, o ensino nas técnicas de Kumitê”, explicou Aucileia.

A técnica de Katá e faixa preta Rosey Pantoja também entrou no mundo do caratê por causa de Carlos Eduardo. “Ele não queria praticar arte marcial sozinho. Então, eu perguntei para o Carlos: se eu for junto com você para aulas para treinar, você irá também? E assim comecei no caratê”, disse a treinadora.

A iniciativa sócio-esportiva não tem uma sede própria. No momento, as amigas Aucileia e Rosely dão aulas em um espaço cedido em uma igreja e precisaram reduzir a quantidade de atletas ao cancelar os treinos no período noturno. “Como tem orações, à noite, se tivéssemos aulas neste período o barulho dos treinos poderia atrapalhar. Mas, desde 2014, somos funcionárias da Prefeitura de Borba para o projeto e recebemos salários, além de passagens aéreas e estadias pagas, quando nossos alunos competem em Manaus ou fora do Estado”, declarou Aucileia.

Antes de disputar a etapa final do Brasileiro, em São Paulo, Carlos Eduardo viajou até Porto Velho (RO), aproximadamente 680 quilômetros de distância, em linha reta. A embarcação demorou quatro dias para chegar à capital roraimense, onde foi disputado a etapa regional do campeonato, em junho.

“Dormimos no barco, quando chegamos lá (em Porto Velho) e depois fomos para casa de um sensei (mestre). Aí, enfrentamos mais quatro dias no rio para voltar para Borba”, relembrou a mãe-treinadora..