Pacientes relatam que fé é a ‘receita’ para vencer o câncer

Girlene Medeiros / Diário do Amazonas


Manaus – Em média, pouco mais de três pessoas, por dia, morreram, de câncer, entre 2011 e 2015, no Amazonas. Só este ano, de janeiro a julho, foram 754 pessoas mortas pela ação de tumores cancerígenos. O levantamento é da Fundação Centro de Controle do Estado do Amazonas (FCecon) que identificou, também, o câncer de colo de útero como o tipo de tumor cancerígeno que mais atinge as mulheres no Amazonas.

Este mês de outubro, a FCecon atua na campanha ‘Outubro Rosa’ com o objetivo de chamar a atenção das pessoas para a importância da prevenção e para o combate ao câncer. Apesar dos números expressivos, há pacientes que lutam contra a doença com otimismo e que conseguiram se livrar dos tumores. O DIÁRIO reuniu alguns desses exemplos de pacientes que não se deixaram abalar, durante o tratamento, e agora comemoram a cura do câncer.

Segurando algumas toalhas com bordados, a professora aposentada Maria Lúcia Monteiro, 70, mostra um dos principais passatempos que tinha enquanto tratava o câncer de mama. O bordado a ajudou a superar o impacto que ela teve quando recebeu o diagnóstico em outubro de 2013. De lá para cá, foram 25 sessões de radioterapia seguidas de quatro sessões de quimioterapia. Apesar de ter ficado assustada ao descobrir a doença, Lúcia disse que, por ser professora, tem o costume de se informar e, imediatamente após receber o diagnóstico, pesquisou sobre sintomas e tratamentos para combater o tumor.

O conhecimento a ajudou a encarar a doença. “Fiquei careca e triste, claro, mas me sentia preparada por já saber todos os sintomas”, disse a aposentada. Para a professora, o estresse é um dos motivos para o paciente perder a imunidade durante o tratamento de qualquer doença, mas, principalmente, do câncer. “Busquei ficar calma, rezo bastante e em nenhum momento desanimei. O estresse é o que acaba com a gente”, disse Lúcia.

Em dezembro do ano passado, a professora foi submetida a uma tomografia que indicou que ela estava livre do tumor. Atualmente, ela passa por exames periódicos, a cada seis meses, de manutenção para acompanhar, detalhadamente, o corpo e identificar algum possível novo indício da doença. O dia a dia de Lúcia é tomado por diferentes atividades manuais, como os bordados, que ainda continuam sendo produzidos e são feitos, muitas vezes, sob encomenda de amigas dela. Outra atividade que ela desempenha é o voluntariado junto ao Grupo de Apoio às Mulheres Mastectomizadas da Amazônia (Gamma Amazônia), uma organização não governamental, criada em 2009, com o objetivo de dar apoio e reabilitar os aspectos emocional, físico, estético e espiritual de mulheres que passam ou passaram pelo tratamento do câncer.

Garra para superar

Outro exemplo de superação é o da vendedora Alciete Vieira, 42. Ela disse que já passou pelas fases que ela considera mais ‘drásticas’ da doença. Curada de um câncer no cólo do útero, há pouco mais de um mês, ela recebeu o diagnóstico do tumor, que se instalou por trás do útero dela, no dia 1º de fevereiro de 2015. Segundo ela, no início, o impacto foi um ‘choque’, mas ela conseguiu adotar estratégias que a ajudaram a mantê-la firme no propósito de alcançar a cura do tumor. “O médico me disse que eu só tinha dois meses de vida e era um tumor do tamanho de um limão”, disse.

Durante o período de um ano e meio de tratamento, ela afirmou ter passado por cirurgia para retirada do tumor, sessões de quimioterapia, radioterapia e até chegou a desmaiar duas vezes, durante o tratamento. Em vez de se deixar abalar, Alciete disse que buscou forças para seguir em frente. “Tive muita garra para superar a doença. Sempre disse que aquela situação não poderia me abater e um conselho que dou é se afastar de pessoas que tratem o doente como coitadinho”, afirmou a vendedora, acrescentando que precisou interromper a profissão após receber o diagnóstico da doença.

O tratamento de Alciete terminou no dia 24 de agosto deste ano. Ela relatou que não tinha condições financeiras para custear muitos dos procedimentos necessários para o tratamento e precisou promover rifas e bingos para angariar fundos. “Não adianta se abater pela doença. É preciso buscar os nossos objetivos e pessoas que alavanquem a gente”, disse. Para Alciete, os familiares são extremamente importantes para manter a força de quem está em tratamento contra o câncer. Além dos parentes, Alciete disse que contou, também, com amigos e a religiosidade que a ajudou emocionalmente. Atualmente, a programação dela inclui os exames, a cada seis meses, para descartar uma possível volta da doença.

Câncer de colo do útero é o que mais mata mulheres, no AM

Conforme levantamento da FCecon, em 2015, foram 185 mortes por câncer de colo de útero no Amazonas tratados na instituição. No ranking com mais mortes, do ano passado, o câncer de estômago segue em segundo lugar com 147 óbitos, seguido de câncer de pulmão, com 131 óbitos; câncer de mama, com 105 mortes; além de 83 mortes por câncer de próstata e 46 por câncer no pâncreas.

Para 2016, o levantamento da instituição conta com dados de janeiro a julho. Conforme o registro da FCecon, foram 108 mortes por câncer de colo de útero, 101 por câncer de estômago, 69 mortes por câncer de pulmão, 61 por câncer de mama, outras 42 por câncer de próstata e 22 por câncer no pâncreas.

O levantamento da instituição se refere a declarações de óbito emitidas pela FCecon de mortes ocorridas na fundação e na casa de pacientes tratados pelos serviços de terapia da dor e cuidados paliativos.

Com o objetivo de chamar a atenção para o combate à doença, em Manaus, a FCecon realiza a campanha ‘Outubro Rosa’. No Amazonas, a campanha também chama a atenção para a importância da prevenção ao câncer de colo uterino, o que mais acomete a população feminina no Estado, conforme explicou o diretor-presidente da Fundação, Marco Antônio Ricci.

Depressão no início do tratamento e ‘renascimento’ após a cura

A aposentada Juceleide de Moura Alcântara, 57, também teve câncer de mama. Segundo ela, o diagnóstico não a pegou de surpresa. Acostumada a fazer exames ginecológicos periódicos, a aposentada descobriu os tumores na mama, há três anos, em um dos exames de rotina.

De acordo com ela, sentimentos negativos a tomaram, ao receber o diagnóstico, e ela ficou triste por ser ativa e ter o hábito de se exercitar, fazendo yoga ou jogando vôley, exercícios que teve que interromper na época. “Fiquei meio depressiva, mas a vida é feita de luta. Ia fazer o tratamento com muita alegria e, hoje, digo que nasci de novo”, afirmou Juceleide, aos prantos por recordar do dia a dia do tratamento da doença.

Foram 36 sessões de quimioterapia e outras 25 de radioterapia. Ela afirmou ter emagrecido 22 quilos. “Eu voltava minha atenção para pensamentos positivos. É muito difícil, mas busquei forças em Deus”, disse.

No caso de Juceleide, o câncer foi um ‘divisor de águas’ não só por causa da maturidade emocional adquirida após a cura da doença há oito meses. Vinda de um relacionamento amoroso conturbado, a aposentada disse que fez do câncer uma ‘razão de viver’. “Graças a Deus, estou feliz. Antes, eu era amarga, mas a vida passou a ter mais sentido e hoje eu sou bem ativa”, afirmou a aposentada, acrescentando que frequenta sessões de yoga, toma banho de igarapé e caminha seis quilômetros por dia.

A luta contra o câncer foi encarada, por Juceleide, como uma guerra em que ela saiu vitoriosa. “A gente tem que lutar, mas lutar com dignidade. A vida é feita de escolhas e não se deve desistir jamais”, acrescentou Juceleide.