Amazonenses expõem seus talentos no exterior

Tiago Melo

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Manaus

Aos olhos do mundo, o Amazonas é ‘apenas’ um lugar exótico feito de paisagens naturais deslumbrantes, santuário de animais selvagens, lar de nativos, e dono de um rio e de uma das maiores florestas do mundo; enfim, são muitos os lugares-comuns que ‘definem’ o lugar. Não são poucos, entretanto, os fatos apresentados pelos que aqui vivem que contestam e mostram que o Estado é muito mais do que uma grande floresta com índios balançando em cipós.

O Estado, na verdade, é lar de inúmeros talentos artísticos que despontam para todo o mundo ver. Seja nas artes plásticas ou no audiovisual, o Amazonas exporta para diversos países exemplos como o da jovem pintora Elvia Neves, de Humaitá, do veterano artista plástico Edemberg Filho, de Parintins, ou do ator manauara Begê Muniz.

De Humaitá para o mundo

Com apenas 16 anos, a estudante Elvia Rocha Duarte Neves, natural do município amazonense de Humaitá, é a primeira de sua família a adentrar o mundo das artes. Demonstrando, desde cedo, interesse pela literatura, pela música erudita e por conceitos mais abstratos, foi questão de tempo até a jovem começar a desenvolver seus ‘rabiscos’ e, aos 14 anos, passá-los para a pintura a óleo. E da pintura a óleo para o resto do mundo.

“Minha primeira exposição foi para um evento da escola, que, diga-se de passagem, foi um fracasso. A estrutura foi improvisada, o número de visitantes foi mínimo. Infelizmente, minha cidade ainda não tem o hábito de apoiar os artistas locais”, lembrou a artista.

Ainda mais motivada com a ‘derrota’, Elvia realizou sua segunda exposição, no 9° Encontro Internacional de Artistas e Escritores de Tarija, na Bolívia, após ser descoberta pelo pintor colombiano Salinas Cruz, que, atualmente, mora no Brasil. “No evento, que tinha aval da Unesco, pude conhecer mais o campo artístico com sua veracidade, conheci artistas renomados que me serviram, e servem, de bons conselheiros”, disse ela.

Já com novos convites para expor em diversos países da Europa, no próximo ano, Elvia não se ilude e admite que sabe que ainda tem muito o que aprender. Ela deixa claro, contudo, que nem por isso pretende cursar uma faculdade de Artes.

“Até me envergonho de dizer que não me interesso por nenhum estilo em particular. Não me agrada ter contato profundo com alguma escola, para não me influenciar. Por isso, decidi não fazer faculdade de Artes. Na realidade, quero fazer faculdade de Letras e Literatura em Língua Japonesa. Sei que é bem diferente do que venho fazendo”, adiantou ela.

Maravilhada com o horizonte que se estende a sua frente e contando com o constante apoio dos pais, Elvia diz que nunca pensou chegar aonde chegou, muito menos se imaginou expondo para um público internacional.

“Onde vivo, minha perspectiva de sucesso era tão mínima, que nem chegou a existir. Pintava para mim. Tanto que meus quadros ficavam em casa, sem receber visitas. Mas quando os primeiros olhos pousaram, quando os primeiros suspiros saíram, e quando minhas telas foram expostas, tive a sensação de dever cumprido. Ainda que apenas uma pessoa goste, ainda que apenas uma pessoa olhe, ainda que apenas uma pessoa se lembre, estarei satisfeita”, disse ela.

Parintins além do boi-bumbá

Descendente de índios e alemães, o parintinense Edemberg Grana Filho, de 55 anos, é um artista plástico disposto a mostrar para o mundo que a arte de seu município vai muito além de festejos folclóricos, como o Boi-Bumbá.

Ao longo de seus 40 anos de estrada, Edemberg conta que já se aventurou em diversas frentes artísticas e produziu desde quadros com temáticas da natureza (‘Orquídeas’ e ‘Tucanos’), passando pelo abstracionismo geométrico e esculturas misturando materiais artificiais e naturais, como ‘Aço inox, arame e acrílica sobre madeira’.

Atuando desde os 15 anos como pintor e artista plástico, Edemberg teve suas obras expostas no 21º Circuito Internacional de Arte Brasileira, entre os meses de setembro e outubro deste ano. O evento, que já passou por diversos países, indo da Argentina à Tunísia, contou com artistas de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e do Distrito Federal.

“Pude representar o Amazonas em cidades como Sófia, na Bulgária, Oslo, na Noruega, e Santo Domingo, na República Dominicana. Agora estou me preparando para as próximas exposições, em Paris e em São Paulo”, afirmou Edemberg.

Um ator ‘global’ e acessível

Com experiência no teatro, com as peças ‘Jaguar Cibernético’ e ‘Sonata Fantasma Bandeirante’, no cinema, com o curta ‘Cachoeira’, e na TV aberta, com a novela ‘Além do Horizonte’, da Rede Globo, o ator manauara Begê Muniz, de 26 anos, agora ‘mete a cara’ em um novo formato e participa da primeira série brasileira da Netflix: ‘3%’.

“Me convidaram para fazer o teste para um dos personagens principais da série, mas, por conta do perfil do personagem, não passei. No fim, fui chamado para uma participação no segundo episódio. Apesar de ter sido uma participação breve, o personagem não morreu e pode voltar na próxima temporada”, afirmou Begê.

De acordo com ele, as suas gravações não duraram mais do que dois dias e, mesmo tendo sido em um formato até então desconhecido para ele, o processo não foi muito diferente do que ele já estava acostumado com o cinema e a TV.

“Com o passar do tempo, percebi que todos os formatos são importantes e que todos aumentam nossa bagagem como ator. Enquanto o cinema e o teatro são mais difíceis de chegar às cidades menores, a TV e a internet, por meio de serviços como a Netflix, facilitam o acesso ao grande público“, disse ele, ressaltando que tem predileção por cinema e TV, mas que não descartaria uma oportunidade de voltar aos palcos.

Dividindo-se, há cerca de sete anos, entre Manaus e São Paulo, Begê conta que a saudade de casa e da família, não o impediu de investir na carreira internacional. “Em 2009, vim para São Paulo para estudar. Fiz um curso básico de teatro e cursos livres do Wolf Maya e da Fátima Toledo e, entre um estudo e outro, arranjei alguns trabalhos”, disse ele.

E foi por conta destes (‘alguns’) trabalhos que Begê passou por países como Holanda e Alemanha, e, ao lado do diretor Sérgio Andrade e de sua equipe, lançou os filmes que protagonizou: ‘A Floresta de Jonathas’ e ‘Antes o tempo não acabava’. Já em 2017, sua carreira se eleva a outro nível e, mais uma vez, ele se verá sob os olhares do público e da crítica especializada estrangeira.

“No primeiro semestre do ano que vem, estaremos lançando o primeiro filme em IMAX 3D feito no Brasil, o ‘Amazon Adventure”, adiantou o ator. Segundo ele, a produção canadense com co-produção brasileira foi, em grande parte, filmada em Manaus, em agosto deste ano. “Nele, vivo um nativo da região que recepciona e guia os pesquisadores e exploradores estrangeiros”, completou ele.

Este, também, será seu primeiro filme gravado em outra língua, no caso, o inglês; o que não foi empecilho algum para o ator, que teve de se tornar fluente no idioma devido às turnês de estreia e divulgação dos filmes que participou. “Já tinha me focado em aprender o idioma para dar entrevistas e coisas do tipo, agora o conhecimento se mostrou ainda mais importante”, concluiu ele.