Com desenvolvedores formados em Manaus, mercado local de games ganha força

Por Tiago Melo


Manaus – A edição deste ano da maior convenção de games do mundo, a E3, acabou há poucos dias e as próximas grandes feiras de jogos eletrônicos não vão demorar a acontecer; inúmeros jogos são apresentados ao público, diariamente; ainda em Manaus, o ‘Museu do Videogame Itinerante’ compartilha conhecimento com seu histórico acervo; a tecnologia de Realidade Virtual (VR) bate à porta.

O momento, portanto, é mais do que oportuno para se olhar para o próprio ‘quintal’ e ver que, aqui, na capital amazonense também se faz video games de qualidade. Mesmo ainda em crescimento, o mercado manauara de jogos eletrônicos conta com empresas estruturadas, profissionais qualificados e um foco definido: as plataformas móveis.

Entretenimento pedagógico

Focado, principalmente, no desenvolvimento de jogos educativos infantis para aparelhos móveis, o Dreamkid Studios foi fundado, em 2015, por quatro amigos apaixonados por jogos — Crysthian Carvalho, Brena Cardoso, Barbara Nicolau e Luiz Marcelo Costa —, após um curso de desenvolvimento de jogos.

“Foi durante as atividades desse curso que os atuais integrantes e cofundadores da empresa se conheceram. Tínhamos o desafio de desenvolver um jogo para smartphone, que seria nosso projeto final do curso. Então, nasceu a ideia do nosso primeiro jogo, o ‘Kadi’, de plataforma, infantil, estilo ‘Super Mario’ e ‘Donkey Kong’”, explicou a cofundadora e designer Barbara Nicolau.

“Quando o curso acabou, a equipe se reuniu para conversar sobre a oportunidade de continuar trabalhando junto. Resolvemos seguir como uma empresa e tentar a sorte. Para isso precisaríamos de ajuda, então procuramos uma aceleradora de startups e, hoje, estamos aqui”, completou ela.

Com cinco jogos no currículo, sendo três autorais (‘Kadi Adventure’, ‘Simon’s West’ e ‘Kadi Balloon’) e dois encomendados por outra empresa, o Dreamkid conta com uma equipe de dois desenvolvedores e duas designers, além de uma pedagoga e uma psicóloga. “São elas que avaliam se nossos produtos estão adequados para o público infantil”, comentou Barbara, ressaltando que o estúdio preza por jogos lúdicos que estimulem o raciocínio lógico, a memória, a linguagem e a criatividade.

Inspirados em outros produtos infantis, como desenhos, vídeos, livros e histórias, com destaque para o jogo ‘The Little Big Planet’ e a animação ‘Toy Story’, a equipe do Dreamkid trabalha, atualmente, em uma plataforma transmídia educacional infantil.

“Será uma plataforma com várias atividades e jogos lúdicos educativos para crianças de 3 a 6 anos de idade. Ela irá ajudar a acompanhar o desempenho da criança e fornecer relatórios de aprendizagem”, afirmou a designer.

Games entre os frutos

Apesar de não ser uma empresa focada apenas em jogos, a Tree of Dreams não faz feio frente à concorrência. De acordo com o programador chefe Claudio Sampaio, a decisão, contudo, de expandir os produtos oferecidos, foi mais por uma questão mercadológica do que ideológica.

“Nós tentamos ser uma empresa apenas de jogos, mas descobrimos que o mercado de desenvolvimento de jogos, apesar de muito grande, é muito competitivo. E para ter um jogo de sucesso é preciso ter investimento em marketing ou criar um jogo viral que se espalhe, naturalmente, entre os usuários”, disse Claudio.

E, diferentemente da Dreamkid, o estúdio de Claudio, antes de fazer jogos, já funcionava como uma empresa de software. “Já tínhamos vontade de fazer jogos, mas foi quando surgiu um concurso internacional para fazer um jogo para uma companhia de celular que aproveitamos para iniciar nossos estudos na área”, afirmou o programador, lembrando que, no mesmo período, a equipe trabalhava em um projeto de um cliente que era “totalmente viciado em jogos e que acabou fazendo parte da empreitada como sócio da empresa”.

Contando, atualmente, com oito profissionais (quatro programadores, dois designers, um administrador e uma publicitária), a Tree of Dreams possui em seu portfólio três games, todos gratuitos e disponíveis para Android, iOS e PC, aos quais continuam oferecendo suporte com patchs e atualizações, visando sempre deixá-los mais divertidos e empolgantes.

“Nosso primeiro game, ‘The Cannon Man Adventures’, nasceu de um jogo de catapultas e requer habilidade e paciência do jogador para lançar o personagem de canhões e passar pelos mais diversos obstáculos. Já o segundo, ‘Neon Hero Defense’, cuja ideia surgiu de um abajur, ainda está em sua versão alfa. É um jogo retrô, que remete à década de 1980 e aos seus neons e fliperamas. Por último, lançamos o ‘Manaus Runner’. Inspirado no trânsito e nas ruas esburacadas da cidade, o jogo apresenta o desafio ao jogador de chegar o mais longe possível sem destruir seu carro”, concluiu Claudio, ressaltando que existem alguns projetos de games futuros ainda na parte conceitual.

Foco social

Instituição privada sem fins lucrativos, a Fundação Paulo Feitoza (FPF) foi fundada em 1998, a partir de um projeto de criação de Centros de Treinamento em Informática, nas zonas periféricas de Manaus. Essa iniciativa cresceu e já capacitou mais de 21 mil alunos na cidade.

“Além da criação de jogos casuais, educativos e de raciocínio lógico, a FPF também é focada no desenvolvimento de soluções inovadoras de software e hardware”, explicou o coordenador de comunicação, Beto Campainha.

Segundo ele, pesquisas apontam que 93,5% dos jogadores de games jogam de forma descompromissada, daí a popularidade de jogos casuais. “Atualmente, estamos investindo mais nesses tipos de jogos, com mecânica focada em engajar os jogadores a superarem cada vez mais seus resultados”, disse ele, cuja equipe, formada por dois designers, um ilustrador, um desenvolvedor e um gerente de projetos, bebe das mais diversas fontes inspiracionais.

“A cultura de jogos é muito estimulada na FPF. Temos um evento chamado ‘Nerd Party’, no qual todos os colaboradores são convidados a parar de trabalhar durante a tarde e são convidados a passar o dia jogando e se divertindo. É um sucesso e estimula o nosso ambiente criativo”, comentou Beto.

Ao todo, a FPF já desenvolveu mais de 60 games para seus clientes, tanto na área educativa quanto na de jogos casuais, incluindo um para pessoas com deficiência motora severa que pode ser controlado apenas com os movimentos da cabeça.

“Recentemente, lançamos o ‘Leap of Cat’, um jogo casual para celulares. O game é do gênero ‘endless run’ e coloca o usuário na pele de um gato que tenta escalar dois prédios, saltando entre diversas varandas e sacadas, com o objetivo de chegar o mais alto possível. O jogo é gratuito”, concluiu Beto.

Como nasce um jogo?

O desenvolvimento de um jogo eletrônico exige extensa interdisciplinaridade. Envolve uma atuação de vários profissionais. O tempo que o processo leva depende muito do tamanho e da complexidade de cada jogo. Pode-se fazer jogos em 48 horas ou pode levar anos  desenvolvendo-o. As etapas de desenvolvimento variam  muito entre cada equipe, mas, de modo geral, é preciso passar pelas seguintes fases:

• Concepção e ideação: O desenvolvimento de um jogo começa longe do computador. Este é o momento de usar a criatividade. Tudo inicia com ideias para a definição de roteiro, tema e plataformas do jogo;

• Game design: É hora de concretizar as ideias em forma de protótipo. O jogo vai para o papel. São desenhados os cenários e personagens. Os designers atuam na criação do visual. No final, temos um documento de Game Design (GDD) e um protótipo em papel jogável, que é avaliado para saber se é divertido;

• Implementação do jogo: Começa a fase de transformar o protótipo e o GDD em um programa de computador. Os programadores e artistas atuam em conjunto no desenvolvimento do software. Nesta etapa, também são acrescentados níveis, sons, trilhas sonoras e efeitos especiais;

• Teste: Esta fase tem o objetivo de garantir a qualidade do produto. Para isso, o game é analisado e possíveis defeitos são documentados. O jogo é testado pelo público-alvo e todos os ajustes necessários são feitos;

• Publicação: O jogo é publicado na loja e se inicia a campanha de marketing para sua divulgação.