Amigos inseparáveis até na terapia

Kamilla Vieiralves / plus@diarioam.com.br

Manaus – Terapia é uma palavra que, ainda hoje, assusta muita gente — seja por não conhecerem o significado da palavra ou por a associarem a quadros de doenças severas. No entanto, terapia nada mais é do que um tratamento para melhorar, desenvolver e recuperar. E, entre os muitos tipos de tratamento desse tipo existentes, um tem chamado atenção por um fator peculiar: a presença de animais.

Indicada para pessoas de todas as idades, a chamada ‘pet terapia’ pode ter sucesso no tratamento de deficiências visual e auditiva, síndrome de Down, deficiência mental, psicoses e autismo, depressão, estresse, distúrbios e até dificuldades de aprendizagem. Isso porque estudos mostraram que o contato com os animais libera, no cérebro, endorfinas beta, dopamina, serotonina, prolactina e oxitocina, hormônios relacionados com as sensações de alívio e alegria.

Para tanto, esse tipo de terapia é dividido em três vertentes: a Atividade Assistida por Animais (AAA), que, a partir da recreação, contribui para o desenvolvimento das relações, da afetividade e do controle do estresse; a Terapia Assistida por Animais (TAA), que, a partir de uma equipe multidisciplinar de profissionais, aplica um método interventivo, visando à melhora nos aspectos sociais, físicos, cognitivos, motivacionais e emocionais, utilizando o animal como mediador; e, por fim, a Educação Assistida por Animais (EAA) que, como o próprio nome sugere, tem um caráter educativo, utilizando recursos pedagógicos na aprendizagem.

Bototerapia

Em Manaus, algumas iniciativas surgiram, nos últimos anos, no campo da pet terapia — inclusive, aproveitando-se de características da região, como é o caso da Bototerapia, desenvolvida pelo fisioterapeuta Igor Simões Andrade.

Natural de Minas Gerais, ele chegou a Manaus, em 2005, e decidiu aproveitar o potencial da região para realizar um sonho antigo. “Eu fiz um curso de Veterinária até o 8º período e cheguei a ter contato com a equoterapia — terapia com cavalos. Tinha facilidade para trabalhar com animais, ainda lá em Belo Horizonte, mas eu queria fazer esse trabalho com crianças e com golfinhos”, contou o fisioterapeuta.

De mudança para o Amazonas, por conta do trabalho, ele conheceu o boto cor-de-rosa e viu a chance de desenvolver um novo projeto. “Quando eu cheguei aqui e tive contato com o animal, vi que o potencial dele estava sendo desperdiçado. No mundo, desde 1940, mamíferos — em especial, os aquáticos — são usados em tratamentos”, conta Igor, ao emendar: “Comecei a nadar com eles, jogar bolinhas e a interagir”.

Hoje, esse é, basicamente, o trabalho que ele realiza com os grupos que leva até o Rio Negro, na região rural de Iranduba, a 25km de Manaus. O bônus vem na forma de educação ambiental, que ajuda os pacientes a entenderem mais sobre o animal.

“Nós sentamos para desenhar botos, golfinhos e faço uma espécie de palestra ambiental. Essa era uma das exigências para que nós tivéssemos a autorização do Ibama para desenvolver esse trabalho”, conta Igor. “Depois, nós entramos na água e eu trabalho muito em torno da coluna e da respiração. Claro que isso depende do que estamos tratando”, completa.

Uma sessão dura em torno de 10 a 15 minutos com cada paciente e, segundo o fisioterapeuta, esses tipos de recursos podem beneficiar diversas patologias. “Não tem uma patologia específica para esse tipo de tratamento. Uma criança cega, por exemplo, tem a chance de ‘ver’ o boto com as mãos e descobrir como ele é. Assim, nós temos a oportunidade de integrar essa pessoa, dar a ela a chance de viver em um ambiente fora de hospital, mais descontraído”, comenta.

A iniciativa foi tão inovadora na região, na época em que Igor iniciou os trabalhos, que, a partir dela, órgãos oficiais criaram regulamentações para projetos que queiram desenvolver algo parecido. “A legislação ainda está muito confusa. Em 2009, foi emitido, no meu CPF, um apoio técnico para essa atividade, porque a bototerapia não se encaixava no formato da lei que existia na época”, relembra o fisioterapeuta.

Desde lá, a bototerapia ficou conhecida e foi tema de matérias e documentários em veículos nacionais e internacionais, inclusive, pelo canal National Geographic. No entanto, para Igor Andrade, o grande reconhecimento vem de um lugar bem mais perto. “As crianças têm reações variadas no encontro com o animal, mas eu tento deixar as sessões divertidas. Elas voltam, quase sempre, dormindo e, depois, as mães sempre relatam uma melhora significativa”, conta.

Equoterapia

A equoterapia também é uma modalidade presente em Manaus. No caso desse tipo de tratamento, o cavalo é o coterapeuta que auxilia o fisioterapeuta na condução do paciente. E essa relação é conhecida por trazer diversos benefícios. “Costumo dizer que cavalo promove saúde”, afirma a fisioterapeuta Thais Costa da Cruz.

“Quando a gente pensa em saúde, engloba físico, psicológico e social e o cavalo é bom para tudo isso. Ele trabalha o físico para as crianças que têm problemas de força/equilíbrio, que não conseguem controlar o seu próprio corpo. Trabalha o psicológico, então, pessoas com problema de autoestima, de estresse e depressão podem fazer essa atividade. E também o social, porque, quando eu consigo compreender quem eu sou, lidar com as minhas questões psicológicas, trabalhar a mente, eu consigo socializar. Andar a cavalo trabalha o corpo como um todo, melhora o funcionamento dos órgãos internos, é um trabalho mais amplo do que as pessoas imaginam”, garante.

Apesar disso, por ser um animal de grande porte, o cavalo pode provocar uma primeira impressão de estranhamento e até medo. Por isso, de acordo com os profissionais do Centro de Equoterapia de Manaus (Cema) e da Escola de Equitação Nissim Pazuello, que desenvolve esse trabalho há cerca de dez anos, a aproximação deve ser feita aos poucos. “Nós fazemos uma avaliação com uma psicóloga e uma fisioterapeuta. Depois da avaliação clínica, tem que avaliar o corpo da criança, como ela reage, quais são os movimentos que ela tem”, conta Thais.

“O começo é você sempre mostrar, trazer a criança para chegar perto”, afirma Claudio Angulo Netto, também parte da equipe da escola. “A gente tenta trabalhar com todos os tipos de cavalo, desde o pequenininho até o mais alto. Tem o pônei, para as crianças menores, que eles já conseguem olhar nos olhos do animal e não se intimidar tanto. Só pelo fato de estarem em um ambiente externo, eles já conseguem ter uma sensibilidade maior”, garante Claudio, lembrando outro fator importante para o sucesso dessa terapia: o envolvimento dos pais.

“A gente sempre tem, na parte inicial, um contato com os pais. Tentamos fazer com que eles acompanhem as sessões, para relatar se houve um ganho, porque a gente trabalha o lúdico — meia hora de aula vai gerar muitos movimentos para a criança — e tentamos fazer com que eles vejam, comentem se eles estão tendo uma reação diferente em casa, se estão sendo mais autosuficientes”, explica.

Dentro dessa proposta, existem diversos exercícios que podem ser trabalhados durante as sessões com o cavalo, muitos dos quais são usados mesmo nas aulas de equitação tradicional. “Nós associamos os movimentos da fisioterapia em cima do cavalo, para potencializar o que o cavalo já proporciona”, explica Thais.

“O cavalo realiza movimentos que a gente chama de tridimensionais, para cima/para baixo, para frente/para trás e para os lados. Esse movimento que vai ser captado pelo corpo, que vai até o sistema nervoso central e vai fazer com que a criança reaja a esses movimentos, despertando a musculatura, para que ela tenha controle”, completa.

Assim, eles aproveitam o momento em que o sistema nervoso está trabalhando e as conexões dos neurônios estão aumentadas paa ensinar. “Colocamos letras e números e o movimento, de sobe e desce (trote elevado da equitação que a gente traz para a equoterapia). Isso ajuda a fortalecer membros inferiores, movimentos que façam rotação, de alcance (que eu tenho que deslocar o meu centro de gravidade e manter o meu corpo no controle), entre muitas outras”, completa a fisioterapeuta.

Melhor amigo do homem

Se a ideia é promover um vínculo entre pacientes e animais, o melhor amigo do homem não poderia ficar de fora. Por isso, o projeto Pet Terapia Amigo Fiel escolheu os cachorros como coterapeutas em sua iniciativa. Criado em 2014, o projeto é ideia da capelã assistencial e técnica em enfermagem Rose Mary Veiga de Britto.

“Eu sempre fui apaixonada por bichinhos. Só que eu nunca quis ser veterinária, na verdade. Como eu sou capelã, sou voluntária dentro de hospital, comecei a observar que as crianças e os idosos — principalmente, os idosos — sentem falta do seu bichinho. Eles sempre relatam histórias lembrando o passado, na época da infância. Aquilo foi me despertando interesse e eu nunca tinha ouvido falar, no Brasil, de um projeto desse tipo”, relembra Rose Mary.

O primeiro contato aconteceu quando ela ainda morava em Curitiba, no Paraná, e começou a investir em pesquisas. “Observei que tinha já um movimento, no Brasil, com intervenções assistidas por animais. Então, quando chegaram, em Curitiba, os primeiros cães, eu comecei a buscar, só que a maioria do meu aprendizado veio com a experiência, pesquisa através de livros. É um projeto muito caro, que requer muita responsabilidade e nem toda a região do Brasil está aberta a receber um bichinho dentro do hospital. Em instituições de abrigo, orfanato, você ainda consegue levar, mas hospital é mais difícil”, conta.

Foi só quando hospitais renomados de São Paulo, como o Hospital Sarah Kubitschek, passaram a abrir as portas para o auxilio dos animais em tratamentos, que Rose Mary passou a ver um futuro nesse meio. “Foi nessa época que eu me mudei para Manaus. Quando eu cheguei aqui, fui fazer uma apresentação na minha igreja, sobre a capelania, e, no material, minha filha tinha colocado a ideia do futuro projeto pet terapia”, lembra.

“Foi por acaso, mas, a partir daí, uma pessoa se interessou em me ajudar e comprou o primeiro cão. Então, eu procurei um adestrador que, coincidentemente, tinha a mesma intenção e nós começamos. O primeiro local que nós fomos foi no ambulatório do Hemoam, há quase três anos”, completou.

Mas não parou por aí. Desde lá, o projeto Pet Terapia Amigo Fiel já passou por outros locais, como a Fundação Doutor Thomas, o Instituto de Saúde da Criança do Amazonas, Casa Vhida e outros locais esporádicos, trabalhando, principalmente, com crianças e idosos.

Para tanto, Rose Mary conta que a terapia também é um processo para os cães, que passam por sessões especiais de adestramento e precisam de um cuidado maior. “São cães adestrados, vacinados, tem carteirinha, tem todo um processo. Até o banho é especial para ir a um local, porque eles não podem transmitir nenhum tipo de doença ou infecção para os pacientes. É preciso ter muito cuidado”, alerta. “Eles são treinados a não lamber, nem encostar o focinho na boca. A gente coloca uma barra para os cães passarem por baixo e pulam, com eles segurando, interagindo com os animais”

E é assim que, mesmo com pouco tempo de atividades, o projeto já coleciona algumas vitórias significativas. “Já tivemos um caso de uma criança que deixou a cadeira de rodas, depois de um período de atividades assistidas com os cães, e idosos que saíram da depressão profunda. São sempre momentos muito bonitos, emocionantes para nós”, conta Rose Mary.

Por isso, ela pretende, a partir deste ano, investir ainda mais no projeto, na esperança de profissionalizá-lo e levá-lo a outros locais. “Nós vamos trabalhar com terapia mesmo além da recreativa, mudando a equipe técnica e queremos juntar voluntários mais engajados. Abrimos uma seleção, no ano passado, então tem outros cachorros que estão ainda em fase de treinamento”, adianta.