Especialista fala sobre os distúrbios do sono e como tratá-los

Dormir: verbo intransitivo que significa ‘descansar em estado de sono’. A definição do dicionário parece simples, mas, para muitas pessoas, as palavras ‘dormir’ e ‘descanso’ simplesmente não entram na mesma frase. E as causas podem ser variadas, provocando o que se convencionou chamar de distúrbios do sono.

Mas, antes de se desesperar com um diagnóstico precoce, é preciso entender como funciona uma boa noite de sono: ao total, são quatro fases — ou estágios, se você preferir. A primeira abrange só 10% da noite e representa aquele momento que você fecha os olhos e começa a relaxar.

A segunda fase, dura, aproximadamente, 45% da noite, quando o seu corpo começa a se acalmar, diminuindo o ritmo cardíaco e respiratório, relaxando os músculos e baixando a temperatura corporal.

A terceira fase dura 25% da sua noite, quando o seu metabolismo cai e todo o seu corpo passa a trabalhar de forma mais lenta. Essa é a última fase antes do sono profundo, chamada fase REM. Ela dura só 20% da noite, mas é nela que ocorrem os sonhos, por exemplo, e o seu corpo tem descargas de adrenalina e alguns picos de batimentos cardíacos e pressão arterial.

Os distúrbios do sono

Agora, se algum desses estágios não condiz com a sua experiência de sono, pode ser que haja alguma alteração no seu padrão, o que, de acordo com o prof. Dr. Mario Louzã, psiquiatra do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), é a definição dos distúrbios do sono.

“Cada faixa etária tem um padrão de sono e alterações nesse padrão normal são chamados de distúrbios. No entanto, ‘distúrbios do sono’ é um termo bastante amplo, sendo que a ‘International Classification of Sleep Disorders, Third Edition (ICSD-3)’ enumera cerca de uma centena de distúrbios do sono”, explica o psiquiatra.

E, apesar de esse número só crescer, existem algumas formas de eliminar opções. Isso porque essas perturbações são divididas em quatro categorias: dificuldade de adormecer ou permanecer dormindo; problemas para permanecer acordado; problemas para conseguir manter uma rotina regular de sono; e comportamentos incomuns durante o sono.

Uma vez identificado algum sintoma, é hora de consultar um especialista. Normalmente, psicólogos, psiquiatras e neurologistas são capacitados para esse diagnóstico, porém, hoje em dia, já existem especialistas na chamada medicina do sono.

“É possível perceber sinais pelas queixas do paciente (dormir pouco, dormir muito, sonolência e fadiga diurna etc.), mas é preciso fazer, primeiro, o diagnóstico correto do distúrbio, o que só pode ser feito pelo médico especializado”, esclarece o especialista, ressaltando que, mesmo com a existência da chamada Medicina do Sono, dependendo da queixa apresentada pelo paciente, o psiquiatra é o profissional indicado. “Por exemplo, uma insônia decorrente de uma depressão”, cita.

A especialidade é reconhecida pela comunidade médica desde 2011, mas, na prática, o primeiro atendimento de Medicina do Sono no Brasil foi em 1977, pelo prof. Rubens Reimão, no Departamento de Neurologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, que persiste em atividade ininterrupta até os dias de hoje.

Por isso, nada de pânico! Existem vários graus de seriedade nesse tipo de enfermidade e, consequentemente, vários tipos de tratamento. “Tudo depende do diagnóstico. Alguns [distúrbios] demandam medicamentos. Às vezes, são necessários aparelhos para ajudar a respirar e, em outros casos, apenas mudanças nos ‘hábitos do sono’, seguindo regras básicas para dormir bem, são necessárias”, explica.

Exames diagnósticos

O diagnóstico é feito através de exames laboratoriais e existem algumas variações, dependendo do tipo de queixa do paciente. Por exemplo, a polissonografia diagnóstica é o exame mais comum. Nele, a máquina faz uma espécie de vigília do sono, para detectar qual o problema e em qual fase do sono ocorre. Por isso, o paciente precisa passar uma noite no laboratório.

A segunda opção é uma polissonografia terapêutica. Basicamente, esse exame segue o mesmo padrão da anterior, mas o paciente ganha um aparelho de pressão positiva de ar (PAP), que irá fornecer, através de uma máscara, uma pressão para desbloquear a via respiratória.

A terceira alternativa é um exame de latência múltipla do sono, que tem por objetivo investigar o quadro de sonolência excessiva durante o dia e a narcolepsia, uma condição neurológica caracterizada por episódios irresistíveis de sono. O exame é feito durante o dia e deve ser feito logo no dia seguinte à polissonografia diagnóstica. Nesse teste, são realizados cinco registros do sono do paciente, com duração de 20 minutos, cada, e intervalo de 2 horas entre eles.

A importância de diagnosticar e tratar corretamente esses transtornos passa diretamente pelos fatores de risco que crises mais sérias podem desencadear, como doenças e até acidentes. “Doenças cardíacas (infarto), vasculares (‘derrame cerebral’, AVC), possivelmente diabetes e até acidentes automobilísticos, já que um caso de narcolepsia pode acontecer a qualquer momento e levar o indivíduo a dormir ao volante. Além disso, perturbações do sono podem causar desde o estresse do dia a dia (insônia) até a dependência por tabagismo, obesidade (apneia), entre outros”, afirma o dr. Mario Louzã.