Em Manaus, ‘Escola de Princesas’ molda meninas para a sociedade

De princípios a etiqueta, o curso 'Vida de Princesa' é realizado em 12 encontros. A franquia oriunda de Minas Gerais também está presente em SP, RJ, MT. Psicóloga ouvida pelo PLUS recomenda cautela aos pais que matriculam as filhas no curso

Bruno Mazieri

Manaus – Na última semana, após o casamento do príncipe Harry com a atriz norte-americana Meghan Markle, um ‘meme’ tomou conta das redes sociais e provocou opiniões divergentes. Na imagem, a duquesa de Sussex — ela não possui o título de princesa — aparece vestida de noiva com a seguinte legenda: ‘A expressão de quem nunca mais verá um boleto na vida”, fazendo referência de que, a partir de agora, ela será ‘sustentada’ pela família real.

De princípios a etiqueta, o curso ‘Vida de Princesa’ é realizado em 12 encontros. A franquia oriunda de Minas Gerais também está presente em SP, RJ, MT (Foto: Pablo Trindade)

Apesar dos inúmeros debates sobre o estereótipo de princesas e suas funções perante a sociedade, em Manaus, um espaço tem chamado a atenção não apenas dos pais, mas do público em geral. Trata-se da Escola de Princesas, franquia oriunda de Minas Gerais e que está presente, também, em São Paulo, Rio de Janeiro e Mato Grosso.

O ‘palácio baré’, por assim dizer, é coordenado por Giselle Pignolati, administradora, coach e professora de pós-gradução. Ela trouxe a escola para a capital do Estado, após dividir a experiência de um curso de férias, no ano passado, com a filha de 11 anos, ainda em Belo Horizonte.

“Ela teve a ideia de participar do curso a partir de uma discussão, na escola, sobre feminismo, feminilidade e o padrão da mulher. Foi quando houve a proposta da Escola de Princesas. Ela mesma me apresentou e comecei a pesquisar sobre o assunto. Em fevereiro do ano passado, fomos até Belo Horizonte e fizemos o curso de férias”, comenta Giselle, que, então, trouxe a marca criada por Nathalia de Mesquita, em 2013, para Manaus.

Formação

O curso ‘Vida de Princesa’, que tem duração de 12 encontros, conta com diversos módulos pré-estabelecidos pela ‘escola-mãe’, disponibilizados em uma espécie de apostila. Atualmente, em Manaus, as turmas se dividem entre sexta-feira e sábado e, juntas, totalizam 17 alunas-princesas. “Funcionamos com crianças de 4 a 15 anos e as aulas são divididas por faixa etária. De 4 a 8 anos, abordamos um determinado tema; de 8 a 12, outro tema; e de 12 a 15 anos, outra abordagem”, diz Giselle.

De princípios a etiqueta, o curso ‘Vida de Princesa’ é realizado em 12 encontros. A franquia oriunda de Minas Gerais também está presente em SP, RJ, MT (Foto: Pablo Trindade)

Entre as atividades aplicadas estão: valores e princípios, etiqueta e boas maneiras, relacionamento entre pais e filhas, saúde do corpo, culinária, responsabilidade social, autoestima e equilíbrio emocional, cuidados com a aparência pessoal e organização pessoal, de acordo com o próprio material de divulgação da escola. “As pessoas reais não têm um sonho ideológico, elas querem fazer e acontecer na vida real. A escola busca resgatar a identidade da criança, resgatar o valor da família, formar caráter e o autogoverno. Uma princesa sabe quem ela é, independentemente do que a sociedade exige”, ressalta.

Giselle revela, ainda, que “a princesa aprende o respeito para com as autoridades e qual seu papel social”, além de, no mercado de trabalho, saber “cumprir suas responsabilidades”. “No módulo da etiqueta, a criança aprende que as redes sociais são uma espécie de diário e passa a filtrar o que pode ou não ser publicado, qual o posicionamento correto de um tema e como se posicionar com ética, cuidado e cautela. Além de postura, oratória e que ela possa debater um assunto sem entrar em atrito com um pensamento divergente”, salienta.

Questionada sobre a adesão das crianças ao curso ser de forma espontânea ou influenciada pelos pais, Gisele ressalta que existe, sim, “o sonho utópico da mãe de ver a criança fazer tudo aquilo que ela não fez, mas têm crianças que sentem a vontade de aprender algo que ela não conhece e sem cobranças”. “Nunca aconteceu de uma criança se recusar em participar do curso, mas acredito que isto se dá pelas atividades, que são temáticas. No caso da culinária, por exemplo, vejo não como sendo algo só para meninas, mas sim pelo lado da alquimia dos alimentos e como manuseá-los”, declara.

Como não poderia de ser, os padrões também entram em debate. De acordo com Giselle, quando se fala em princesa, se imaginam vestidos iguais aos de Bela (A Bela e A Fera), Cinderela e afins. “A sociedade tende a impor padrões. Salto alto, pedrarias, que não se pode repetir roupas. Mas deixamos claro que a Bela não deixa de ser a Bela por usar calça jeans, bermuda ou short, ela continua sendo a Bela por conta do caráter dela e não por conta do estereótipo”, diz.

Reações externas, como de movimentos feministas, também chegam à empresária. Sobre essas críticas, Giselle avalia como algo muito natural. “A maior parte das críticas surgiram por meio das redes sociais, mas sempre respondemos os comentários. Com isso, mostramos o real sentido da escola e esclarecemos qualquer dúvida”, finaliza a administradora.

De princípios a etiqueta, o curso ‘Vida de Princesa’ é realizado em 12 encontros. A franquia oriunda de Minas Gerais também está presente em SP, RJ, MT (Foto: Pablo Trindade)

Formação

O curso ‘Vida de Princesa’ tem duração de três horas, cada encontro, e o investimento total é R$ 1.200, podendo ser parcelado. Giselle conta que, ao final do curso, é feita uma coroação com a participação da família. “As crianças não vão parar de brincar, de correr, nada disso. Mas sim, ser organizada. Temos relatos de crianças que chegavam da aula e deixavam sua mochila espalhada pela casa e, agora, agem diferentes. E vamos continuar trabalhando com o esclarecimento para evitar o preconceito social sobre o assunto”, afirma.

A Escola de Princesas está localizada na Rua Rio Içá, 8, quadra 22, conjunto Vieiralves, bairro Nossa Senhora das Graças. Para mais informações: (92) 984139208.

Escolha sobre o curso deve partir da criança, diz psicóloga

Segundo a psicóloga e mestre em Psicologia Alessandra Pereira, a sociedade vive um momento muito polarizado com pontos de vistas sociais bem divergentes e, também, convergentes. “Acho que a primeira coisa é entender que existem pessoas que concordam e outras que não concordam com a escola. É como se vivêssemos em dois séculos: uma parte no 21, onde se fala de uma mulher empoderada, senhora de si, e outra no século 17/19, que ainda quer um papel da mulher enquanto dona de casa e tudo mais e isso precisa ser respeitado”, ressalta.

Porém, de acordo com ela, quando se fala do ponto de vista da criança, a psicóloga tem outra opinião. “No que diz respeito às crianças e adolescentes, elas vivem nos tempos de hoje e não do século passado. Pais que colocam seus filhos nessa condição transparecem ser um desejo deles, uma expectativa, uma aspiração deles e não das filhas”, observa.

Alessandra revela que, inclusive, já acompanhou histórias de mães que colocaram suas filhas em uma escola de princesas fora do Estado e que, depois de um tempo, acabaram retirando-as após decepções religiosas. “Fora de Manaus, existe um grupo religioso por detrás da escola e, em Belo Horizonte, pude conversar com uma dessas mães que, somente após uma decepção religiosa, começou a se afastar do curso”, diz.

A profissional destaca, ainda, que não é contra o posicionamento das mulheres que querem viver este ‘sonho’, mas que “é algo mais do entendimento dos pais do que das próprias crianças”. “Ela passa a não ter uma visão de vida, vive em um mundo diferente do de hoje, diferente do qual ela está sendo criada, podendo até se tornar intolerante com o resto da sociedade. Não se precisa ter um lugar específico para se viver, o lugar dela é onde ela quiser, só se faz isso quando se tem autonomia e quando algo é imposto, cerceia e limita o desenvolvimento”, alerta.

Ela questiona, também, o fato das crianças que não querem ser princesas. “E se ela não quiser? O que é considerado normal dentro de um viés conservador pode, também, estar associado a valores religiosos, apesar de a escola dizer que não prega nada político nem religioso. É a mesma explicação do projeto ‘Escola sem Partido’, que nós sabemos que existem movimentos religiosos por trás dele”, diz.

Apesar disso, Alessandra esclarece que é um ‘espaço’ delicado para o momento pelo qual passa a sociedade. “Não cabe a ideia de antagonismo, mas estamos criando pessoas para que sociedade? Estamos criando crianças para um mundo que nós achamos certo ou para o que elas escolheram para viver?”, finaliza.