Especialistas de Manaus avaliam perda ocorrida no incêndio do Museu Nacional

Para especialistas locais, perda é irreparável, mas incidente serve para conscientizar a população

Maria Luiza Dacio

Manaus – Para uns um incidente ou uma infelicidade, mas, para muitos, uma tragédia anunciada. O incêndio no Museu Nacional, que aconteceu no último domingo, 2, transformou em cinzas memórias guardadas desde o século 19 — alguns dos itens, preservados há milhares de anos. Relíquias não apenas do País, mas da história humana.

Mais que isso, a tragédia trouxe à tona a importância desses espaços que preservam a história da sociedade onde estão inseridos e o descaso em que se encontram. No caso específico do Museu Nacional do Rio, deixou claro o impacto dessa perda no que somos como indíviduos e sociedade — muito além dos limites do Rio de Janeiro, vale ressaltar.

Incêndio no Museu Nacional foi controlado durante a madrugada (Foto: Tânia Rego/Agência Brasil)

São Cristóvão, Quinta da Boa Vista, zona norte do Rio. O espaço do Museu, que, antigamente, era a residência real e o local da assinatura da independência, por Maria Leopoldina, em 2 de setembro de 1822, se vê em luto, na semana da Independência.

O professor e coordenador do curso de Arquivologia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Leandro Coelho de Aguiar, estuda História das Instituições e Acervos e Preservação do Patrimônio Documental. Em 2017, atuou como diretor da divisão de pesquisa e documentação do Museu Amazônico da Ufam. Em Manaus há dois anos, o carioca é formado em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em Arquivologia na Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e iniciou o doutorado em História Social na UERJ.

“Eu penso em patrimônio documental, e o meu recorte atual é no Amazonas. Mas o que aconteceu no Museu Nacional, é uma perda gigante não só para a minha área direta, que é a Arquivologia e História, mas eu vou do princípio que é também um museu natural, com uma série de outras áreas que têm suas perdas”, começou.

“Peças únicas, como as múmias egípcias vindas com Dom Pedro, que ele mesmo adquiriu, e uma série de outras peças que são fundamentais para pensar a história não só do Brasil, mas, também, da humanidade. Isso o faz tão especial”, defendeu.

Apesar do enfoque Amazônico desenvolvido no trabalho de pesquisa do professor, a perda do Museu Nacional, para ele, afeta bem mais que um segmento de estudo, e sim, na vida dos moradores da cidade, que tinham, no local, uma referência afetiva. “Um espaço gigantesco, onde se via várias crianças e um jardim zoológico ao lado. É um complexo cultural importantíssimo. Eu mesmo, enquanto aluno, ia quase todo ano visitar o zoológico, o museu. Eu como professor do Estado do Rio de Janeiro, por dez anos, também. Levei meus alunos nos mesmos lugares que eu frequentava. Diferente, talvez, de outras situações, é nítido você perceber que a sociedade carioca sentiu essa perda”, disse.

Para Leandro há, verdadeiramente, um impacto afetivo e uma perda signifitiva em relação às pesquisas e estudos que estavam em andamento. “Não só pelo acervo perdido, era uma extensão da universidade. Tinha pesquisas na área de botânica, por exemplo. Um professor de botânica, que fez mestrado comigo, tinha uma sala no museu e perdeu tudo. É para além de um museu, além da perda do ponto de vista científico, tem a questão da memoria da população. Se você fosse no domingo de tarde, veria várias crianças brincando. Eu mesmo, tenho memorias de lá, correndo no gramado olhando pra trás e tem aquela construção enorme. É um local que tem espaço para todos, independente de classe, não era para um grupo social. Sem falar das exposições, para os alunos. As visitas eram impactantes. Para a mim, o museu ia além da pesquisa. Ele remete à memória da população carioca”, defendeu.

“Ao mesmo tempo, nos lembra da falta de perspectiva da política pública. Me faz pensar: montantes de dinheiro, hoje, não vão fazer diferença alguma. Tanto do ponto de vista do valor e do resgate dos valores históricos. Não dá pra recuperar ossadas, múmias… O crânio de Luzia! Dinheiro nenhum vai resgatar. É efêmero. Por que nada foi feito antes?”, criticou.

A Amazônia e seu espaço no Museu Nacional

Dentro do enorme acervo de quase 20 milhões de itens, é impossível não pensar na representatividade Amazônica, em um espaço que englobava inúmeras culturas e povos.

“Tinha muita coisa da Amazônia, sim, mas de todos os lugares do mundo. Preciso destacar que o Museu Nacional é o único museu Brasileiro que foi criado com um projeto de museu metropolitano”, começou o museólogo do Museu Amazônico, Saulo Moreno Rocha, explicando que, diferente dos museus coloniais, criados em diversos pontos do globo, o Museu Nacional não era simplesmente um entreposto para envio de peças para a Europa e países metropolitanos.

“Quando o museu foi criado, em 1818, como Museu Real, Dom João deixou claro que era para incentivar as artes, o estudo das ciências e da indústria. Tem um estudo da Maria Margareth Lopes que chama o Museu Nacional de fundamental para entender a formação das ciências no Brasil, no século 19. Tudo passava por lá. Quando vemos agora, o Museu Nacional morto, não morre só o museu, morrem as vidas ali representadas, não só vidas humanas”, lamentou.

Saulo destaca que, nas coleções etnográficas, ocorreram as maiores perdas para as memórias amazônicas. “Eram formados de matéria orgânica, que são facilmente consumidas pelo fogo. Desde o século 19, muita coisa foi enviada do Amazonas para lá”, informou.

Moreno conta que o Museu fazia muitas solicitações aos presidentes de província. O diretor do museu sempre solicitava aos viajantes que passassem pela região que levassem materiais. “A gente tem uma coleta não só de artefatos considerados exóticos dos povos indígenas, mas de outras populações que viviam e vivem no Amazonas. Você tem, também, da fauna, flora e questões minerais. Você tinha de tudo um pouco, então os viajantes, quando pesquisavam, estavam atentos a natureza, cultura, sociedade e, no nosso caso, do Amazonas, não foi diferente”, disse.

O museólogo destacou, principalmente, as coleções de cultura material do povo Tikuna. “É o maior grupo indígena, em termos de população, do Amazonas e do Brasil. O Museu Nacional possuía peças e artefatos dos Tikuna produzidos desde o século 19 e coletados ainda nesse século”, explica.

“Estive no Museu Nacional, em abril. Fui à exposição de longa duração e vi muitos objetos, desses citados. Principalmente, objetos utilizados no ritual da moça nova — rito de passagem das mulheres Tikuna. Isso sem contar os objetos guardados em reserva técnica, que, aparentemente, se perderam”, disse.

“Era uma área gigantesca para se administrar, era muita coisa. Com o recurso que eles recebiam, com as equipes que eles tinham… Historicamente, podemos dizer que as atividades de cada funcionário, estudante e pesquisador foram atos heróicos. Atos de heroísmo daqueles que estiveram à frente”, finalizou.

Museu Amazônico

Assim como o Museu Nacional estava ligado a uma Universidade Federal do Rio de Janeiro, em Manaus, o Museu Amazônico está vinculado diretamente à Universidade Federal do Amazonas (Ufam). O diretor do Museu, Dysson Teles Alves, falou à PLUS da importância da manutenção e investimentos para este tipo de serviço público. “É um patrimônio cultural que desaparece. O que isso representa pra nós?” perguntou, respondendo logo após seu questionamento. “É um pedaço da história que não existe mais. Seria ótimo se pudéssemos estudar tudo ao mesmo tempo, mas não é bem assim. Os estudos são verticalizados em suas temáticas”, explicou.

O historiador salienta, ainda, que a valorização é ainda mais necessária, visto que muitas das memórias que existiam foram pulverizadas. “Hoje, quem tem algum vestígio possui um tesouro na mão. O que mais nos toca é a impossibilidade de pleitear um projeto de pesquisa. É um sentimento de perda muito grande. Abriu-se uma lacuna”, lamentou o diretor.

Para o diretor, embora os gestores das universidades federais busquem soluções e alternativas, o governo federal trata com descaso estes problemas. “Nossos gestores têm toda uma preocupação. O reitor da Ufam, Sylvio Pulga, tem tratado com carinho. Mas, tanto nós quanto o reitor ficamos impossibilitados, no aguardo de repasses de verbas do governo federal. Recursos esses que, anualmente, vêm diminuindo”, disse.

O incidente, segundo ele, vem como alerta. “Infelizmente, é preciso acontecer um evento desse porte, para que a sociedade se manifeste e as instituições olhem com devidos olhos. É uma questão de preservação de patrimônio, na tentativa de que não ocorra nada parecido em outros lugares”.

Anualmente, a média de visitantes, do Museu Amazônico é de 3,5 mil visitantes, enquanto a população do Amazonas, de acordo com o último Censo, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é de 2.145.444 habitantes.

Diante desses números, o diretor criticou a falta de um processo educativo. “De maneira geral, não podemos comparar os cuidados que o povo europeu e o sul-americano têm com os museus. Eu espero, um dia, chegar a esse patamar. É tudo um processo educativo, que começa desde a sua casa e passa pelas escolas”, defendeu.

Prova disso é o projeto do Museu Amazônico voltado à escola e crianças da Educação Infantil. “Nós temos uma série de atividades, exatamente para começar a introduzir as crianças em um meio cultural, despertar nelas um sentido de preservação de objetos de museu e ensinar que aquilo não é objeto velho e, sim, sua história”, finalizou.