Índios pelas lentes de Soares

Fotógrafo participará de bate-papo na sede da Fundação Amazonas Sustentável (FAS), no dia 31 de maio, com entrada gratuita, mas vagas limitadas

Bruno Mazieri/plus@diarioam.com.br

Foto: Divulgação

Manaus – Quando pequeno, em Minas Gerais (MG), o fotógrafo Renato Soares não cansava de ouvir as inúmeras histórias contadas por seu tio-avô Frei Ciro, um franciscano que morou em Tabatinga (AM) e passou por inúmeras cidades do Alto Solimões. Hoje, ele se tornou personagem de suas próprias histórias ao adentrar as matas registrando as etnias indígenas que sobreviveram ao tempo e ao progresso. E, desta vez, ele assume o papel de contador de ‘causos’, durante o bate-papo ‘O Índio e a Fotografia’, no dia 31 de maio, às 19h, na Fundação Amazonas Sustentável (FAS), localizada na Rua Álvaro Braga, 351, Parque 10.

Soares, que atua como colaborador das revistas National Geographic e Scientific American, teve muito do seu ‘primeiro amor’ — leia-se: povos indígenas — incentivado pelo sertanista Orlando Villas-Bôas. “Nós nos conhecemos no final dos anos 1980 e mantivemos contato até a sua morte. Durante um tempo, trabalhei com fotos para publicidade, moda, mas entrei em uma mata, pela primeira vez, em 1991, mais precisamente no Vale do Javari, localizado em Atalaia do Norte e Guajará (AM), onde vivem os marubos, kanamari e kulina, por exemplo”, conta ele.

Ele comenta que, antigamente, os contatos com o homem branco eram muito complexos, pois era como se o índio não existisse. “Porém, há 25 anos, comecei a fazer um trabalho de venda de fotos, por meio de direitos autorais. Ou seja, toda foto comercializada tem 33% do valor encaminhado para a comunidade em questão. Então, os índios começaram uma espécie de ‘fofoca’ entre eles e esse ingresso nas tribos foi acontecendo naturalmente. Até hoje, tribos ainda recebem valores em decorrência da venda de suas fotos”, revela.

Longe do estereótipo de selvagens, comumente retratado em livros e filmes, os índios sempre receberam Soares “de braços abertos, sorrindo”. “A guerra quem fez foi o homem branco, quem esmagou o índio foi a nossa sociedade. Matamos homens, mulheres, jovens, crianças. Tiramos os direitos deles. Setenta por cento da ancestralidade do brasileiro é indígena e oriunda das mulheres. É sabido que mais homens foram mandados da Europa para cá e que inúmeros deitaram com índias. Essa história de ‘vovô pegou a vovó’ pelo laço é um absurdo, é um estupro. Faço o brasileiro se enxergar como índio”, salienta.

Questionado sobre a polêmica envolvendo o registro de uma tribo que vive isoladamente, no Acre, pelo fotógrafo Ricardo Stuckert, Soares é categórico. “Eles disseram que não sabiam que existia aquela tribo lá. Mentira! Todas as tribos são mapeadas e quem passa de helicóptero pela região sabe que eles habitam naquela área. Achei agressivo. Se eles se mantêm isolados, é porque eles querem. Se estivesse havendo um ataque de garimpeiros, ainda justificaria, mas, nesse caso, achei perturbador”, defende.

Planos

Para o futuro, o fotógrafo pretende registrar as mais de 305 etnias e mostrar as 274 línguas existentes. “Quero mostrar para o brasileiro que somos todos índios. Mostrar que existe uma beleza diferente daquela da TV ou do shopping, nas vitrines. Quero mostrar que a beleza da humanidade está nas diferenças culturais e o Brasil é multi. Aqui, ainda tenho o desejo de fotografar os waimiri atroari e, agora, devo fazer uma entrada juntamente com a FAS na comunidade do kambebas”.

Sobre uma possível exposição para Manaus, Soares diz que já possui uma mostra pronta, chamada ‘Ameríndios do Brasil’, que conta com 55 imagens, todas em papel de algodão e com molduras. As peças variam de 50x75cm até 2 metros. “O que falta é apenas incentivo”, finaliza.