Manaus pelos manauaras

Kamilla Vieiralves / Diário do Amazonas


Manaus -Nesta segunda-feira, 24, Manaus completa 347 anos. E quem já viveu tanto em tão pouco tempo, certamente tem muita história para contar. Pergunte a qualquer manauara e ele imediatamente vai lhe apresentar o Teatro Amazonas, imponente no centro da cidade. Converse mais um pouco e você pode ouvir sobre os fins de tarde na Ponta Negra, a grande variedade de peixes e pratos regionais que arrancam suspiros de qualquer chef de cozinha.

Por isso, para comemorar essa data e tentar celebrar cada pedacinho que forma a identidade baré, convidamos o maior cartão postal da cidade: os manauaras.

Renata Paula – produtora cultural

“Sou manauara da gema!”, se adianta a produtora cultural, afirmando que não larga essa cidade por nada. “Muito ativista da cidade, já tive oportunidades de sair, mas optei pelo roçado tropical, quente e úmido dessa terra”.

O clima, por sinal, é uma das características mais conhecidas da cidade. Quem nunca reclamou de calor em Manaus, que dê o primeiro mergulho na cachoeira mais próxima. “Há quem diga que a capital do mormaço é servida pela disposição da sociedade amolecida pelo sol e irritada pela quentura diária. Eu não me incomodo, mas, se pudesse, trabalharia de biquíni. Quando o calor me cutuca eu dou um ‘tibum’ no rio e logo passa”, brinca a produtora.

E todo esse amor, segundo ela, vem de uma identificação muito particular com lugares que marcaram a sua história e, até hoje, produzem boas lembranças. “Uma identificação clássica é próximo à Ponte de Ferro da 7 de Setembro, com aquele cheirinho de café moído. Convivi naquela área desde a infância, minha avó mora na Betânia, estudei no Colégio Peixinho Dourado e no Patronato Santa Teresinha. Aquela área é hipnotizante, sempre muito fervilhante, tem o rio, a feira, a venda de carvão, enfim, ali é muito nostálgico”, conta Renata.

Marcus Pessoa – idealizador da página No Amazonas é Assim

Marcus Pessoa escolheu como uma de suas atividades ressaltar e divulgar as belezas e percalços do Amazonas na internet, através da página ‘No Amazonas é assim’. Qual seria, então, o balanço para alguém que, todos os dias, tem contato com o bom e o mal no que diz respeito à cidade? “Acredito que é saber lidar com as adversidades. Como a cidade tem uma base histórica diversificada, foi crescendo numa confusão. Confusão essa que, também, é a realidade que o povo vive todos os dias”, revela.

De acordo com ele, o melhor da cultura manauara é ser uma construção constante, pautada no dia a dia da população. “Eu me identifico com a questão de viver e o nosso dia a dia ser a nossa cultura. A gente vê a cultura e o empreendedorismo acontecendo nas ruas o tempo todo, no artesanato, na gastronomia, nas manifestações ao ar livre”, conta Marcus.

Talvez, por isso, ele tenha escolhido o Paço Municipal como lugar favorito na cidade. “Eu gosto muito do Paço, nesse formato atual de estar limpo, arrumado e recebendo eventos constantemente”, explicou, adicionando, ainda, outra parada importante para quem visitar Manaus. “O Mercado Adolpho Lisboa vale muito a visita, para conhecer a culinária, os sabores, os cheiros e os temperos regionais”, finaliza.

Erik Lorenzzo Silva – Advogado
Para o advogado Erik Lorenzzo Silva, a hospitalidade tão famosa dos manauaras é uma das características que embelezam a cidade. Nada como o calor… Nesse caso, o calor humano mesmo. “Manaus é uma cidade que recebe bem seus visitantes, o povo manauara os trata como membro da família. Daí o porquê de tanta gente se sentir bem quando visita a cidade”, garante.

Assumidamente apaixonado pela cidade, ele remete à infância para escolher lugares que facilmente entrarão na lista obrigatória de uma visita. “Tem o Centro Histórico da cidade, que eu frequentava diariamente quando estudava no Colégio Dom Bosco, e a loja de discos que meu pai e tio tinham e que vem sendo, aos poucos, revitalizados; a Ponta Negra, o Encontro das Águas, o Teatro Amazonas, o Largo São Sebastião e meu querido Colégio Dom Bosco, há 95 anos em Manaus. Foi onde estudei por 14 anos, sendo de lá que cultivo, até hoje, boa parte das minhas amizades”.

Sem medo de parecer parcial, o advogado — que conta já ter tido a oportunidade, inclusive — não mede elogios ao apresentar Manaus para os turistas e curiosos: “Impossível falar da nossa cidade sem mencionar sua riqueza histórica e cultural, começando pelo legado europeu na arquitetura da cidade, passando pelos atos históricos, como, por exemplo, a abolição da escravatura (quatro anos antes da Lei Áurea), alem de ter sido a primeira cidade do País a ter luz elétrica na rua, onde tivemos a primeira faculdade do País. Manaus foi a cidade que deu ao Brasil o relator da nossa Constituição Federal, também tida como Constituição Cidadã. Além disso tudo, ainda foi a sede que mais se destacou na Copa do Mundo de 2014”, relembra Erik.

Anna Beatriz Duarte – estudante de jornalismo

Deve haver, de fato, algo de especial em Manaus que faz com que, mesmo quem deixou a cidade, lembre-se dela de forma carinhosa, como é o caso da estudante de jornalismo Anna Beatriz Duarte. Morando atualmente no Rio de Janeiro, ela conta que tem coisas que ela jamais trocaria pelos encantos da cidade maravilhosa. “O lugar mais especial para mim em Manaus é o bairro São Raimundo, pois foi onde cresci e só tenho boas lembranças. E, agora, está mais valorizado por causa da orla, ficou até mais bonito. Aqui no Rio, sinto muita falta dos lanches nos bairros. Eu ia todo domingo comer um lanche ou com os amigos, ou com meus pais. Era de lei. Saía da missa e ia para o lanche comer um x-salada”, conta.

A origem manauara, segundo Anna Beatriz, até hoje é um caso à parte, onde quer que ela se apresente, em terras cariocas. Por isso mesmo, ela reserva sempre o melhor da cidade para quem se diz curioso. “Manaus é uma cidade hospitaleira, quente, com belezas sem igual e comidas típicas deliciosas. Parece até não ter muito o que fazer, mas é só explorar um pouquinho mais e se aventurar em passeios de lancha, tomar banho nas águas escuras do Rio Negro

— isso não pode faltar!”, ressalta.

Maria Helena Pedroso – empregada doméstica

É praticamente impossível falar de Manaus sem mencionar sua localização privilegiada em meio a floresta. Por isso, alguns pontos da cidade se tornam atrações até para quem mora na cidade há anos. “Nos domingos, eu e meu marido temos o costume de ir ao Inpa, ao Cigs ou ao Jardim Botânico. Manaus é uma cidade cheia de belezas naturais que valem a pena conhecer”, afirma a empregada doméstica.

Quem mora na cidade há bastante tempo, inclusive, pode contar com propriedade de uma época em que Manaus era formada por inúmeros igarapés que lotavam de famílias, ansiosas para se refrescar nas águas geladas dos rios, nos fins de semana. “Não que eu seja tão velha assim”, brinca Maria Helena. “Mas lembro dos igarapés da cidade que, hoje, já estão poluídos ou foram quase todos aterrados. Minha família ia muito em um lá na ponte da Bolívia, no Tarumã ou no Banho da Conceição, perto da barreira. Era a diversão do fim de semana”, relembra.

Para os turistas, que já não podem aproveitar dos igarapés na cidade, ela deixa uma dica de programa obrigatório quando passar por Manaus. “Não deixe de provar o peixe e as comidas que temos por aqui”.

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