Padrões que não limitam a beleza real

Longe do ideal que ainda desfila nas passarelas, amazonenses e celebridades se apoiam na autoestima em busca da felicidade

Gabriel Machado / plus@diarioam.com.br

Manaus – Em uma época que diversas marcas e grifes mundiais — como Ralph Lauren e Nike, por exemplo — abrem espaço para as chamadas ‘mulheres reais’ em seus editoriais, um comentário chamou a atenção no universo da moda, na última semana. Após apresentar o desfile da Dior, na Semana de Moda de Paris, a estilista italiana Maria Grazia Chiuri declarou: “Nem todas as mulheres podem ser modelos”.

A crítica da italiana foi direcionada à recente onda de shows com modelos plus size, destaques do evento de moda de Nova Iorque. Na ocasião, há três semanas, a bela Ashley Graham — ícone da categoria — liderou mulheres do segmento em um desfile de lingerie.

A blogueira e ilustradora Suelen Lima, 26, é uma das ativistas da aceitação corporal, no Estado (Foto: Divulgação)

“Atualmente, as pessoas querem fazer de tudo. Se você quer ser um cantor, você tem que ter voz. Se quiser ser um alpinista, tem que ter preparo físico. Há algo que especifica”, argumentou Maria Grazia.

A crítica da estilista está sendo considerada um grande retrocesso à recorrente luta contra os pré-estipulados ‘padrões de beleza’, nas passarelas.

“Até os mais bem-sucedidos têm falhas. A dessa senhora, por exemplo, é achar que a gente liga para o que ela acha, simplesmente por estar à frente da Dior. Felizmente, temos pessoas tão bem-sucedidas quanto que pensam exatamente o contrário”, rebateu a blogueira e ilustradora Suelen Lima, de 26 anos. A amazonense é uma das ativistas da aceitação corporal, no Estado.

Redes sociais

Recentemente, a própria Ashley Graham, considerada voz importante pela aceitação e inclusão de mulheres de todos os tipos de corpos, lançou um desafio aos seus 5,2 milhões de seguidores, às atrizes Tracee Ellis Ross e Danielle Brooks e à cantora Demi Lovato, no Instagram.

“A verdade é que eu não acordo todas as manhãs amando a pele que habito. Nem sempre amei meus culotes, minhas estrias, minha barriga e minha celulite. Agora, quero encorajar vocês! Vocês também podem amar isso aqui e tudo isso aí! Lembrem-se sempre disso”, disse a modelo, em vídeo publicado na rede social.

Por meio da iniciativa, Ashley convidou as mulheres a contarem as verdades em relação a seus corpos ou, então, doarem para a fundação ‘I Am B.E.A.U.T.I.F.U.L’, uma organização sem fins lucrativos que promove programas de enriquecimento físico e mental para garotas.

Com menos de uma semana de lançamento, a campanha, intitulada ‘I’m no angel’ (ou ‘Eu não sou um anjo’, numa tradução livre), vem ganhando cada vez mais forças, na web.

As redes sociais, inclusive, têm um papel importante em disseminar a ideia da autoaceitação, aponta Suelen. “As minhas (redes sociais) me ajudam muito nisso. Mas, infelizmente, nem todos têm a maturidade necessária para isso e acham que o dia deles vai melhorar se fizerem o de outros pior, com comentários de ódio gratuitos. É importante filtrar esse tipo de coisa para não se deixar afetar e saber diferenciar críticas construtivas de infantilidade”, ponderou a blogueira.

O empreendedor Lucian Alves, 32, faz coro à opinião da conterrânea. “Existe o lado positivo e o negativo. Eu, por exemplo, não me importo em postar uma foto sem camisa, nas minhas redes sociais. Sou bem resolvido com isso e aceito meu corpo. Sou feliz dessa maneira. A forma negativa são as pessoas que tentam passar uma imagem daquilo que não são”, acrescentou o empreendedor.

Crescimento na TV

Não é somente nas passarelas que tabus estão sendo quebrados com relação ao estigma do ‘corpo perfeito’. Na TV – nacional e internacional -, personagens e artistas que se enquadram nesse segmento têm conquistado cada vez mais destaque.

Em ‘A Força do Querer’, por exemplo, a atriz Mariana Xavier dá vida a Abgail, uma secretária bem resolvida com a aparência cujo sobrenome é autoestima. Na trama de Glória Perez, ela é aficionada ao universo dos cosméticos e beleza.

A atriz Mariana Xavier (Foto: Divulgação/Ego)

Para Suelen Lima, essa cultura televisiva influencia muito o público, principalmente o mais jovem. “Quanto mais exemplos de mulheres empoderadas tivermos, melhor”, frisou. “Se iniciativas como estas estiverem abrindo caminhos para as pessoas se libertarem, acho muito bacana”, completou Lucian.

Fora de cena, Mariana é uma das atrizes que puxa o coro da autoaceitação, no Brasil. Recentemente, a artista estrelou a sua segunda campanha de lingerie para uma grande marca nacional.

Em entrevista, ela deixou claro que, quando o assunto é beleza, está tudo relacionado à felicidade. “Bonito é ser feliz. Bonito é saber seu valor, que vai muito além do seu corpo e sua embalagem”, destacou Mariana, em bate-papo com o Gshow.

Nos Estados Unidos, o mesmo papel social da atriz foi desempenhado por Lena Dunham, criadora e protagonista do seriado ‘Girls’, da HBO. Em diversos episódios da atração, que durou seis temporadas, Lena exibiu, orgulhosa, sua silhueta mais rechonchuda. De início, as cenas de nudez da atriz causaram um certo desconforto para os mais conservadores – o que foi respondido pela artista, olhe lá, com mais nudez de sua personagem, a escritora Hannah.

Um ano após a sua estreia, em 2012, ‘Girls’ foi premiada com dois Globos de Ouro (Melhor Série de Comédia e Melhor Atriz em Série de Comédia). Em seu discurso, Lena reforçou: “Esse prêmio é para todo mundo que, em algum momento, já achou que não tivesse um lugar no mundo”.

 

“Da mesma forma que você deve aprender a se aceitar, não significa que isso seja um tipo de ditadura. Já sofri pela ditadura do cabelo liso e já vi meninas sofrendo pela ditadura do cacho, a real é: faça o que você quiser com o seu corpo. Cabelo cresce e você pode engordar ou emagrecer em qualquer ponto da sua vida, sem neuras (salvo casos médicos, claro). Gosta de usar glitter até para ir à padaria, mas tem vergonha? Não deixe isso existir em você. Faça o que você quiser com o seu corpo”, Suelen Lima