Pais solteiros mostram relação de amizade com os filhos

Por Kamilla Vieiralves

Manaus – No final da década de 1970, Roberto Carlos escreveu ‘Meu querido, meu velho, meu amigo’, homenageando não só o seu pai, como milhares de outros, Brasil afora. No entanto, a estrada que termina na relação de parceria, tão exaltada pela música, é tortuosa, cheia de buracos e curvas perigosas.

A experiência pode ser ainda mais desafiadora quando eles se veem na condição de pais solteiros, como nos casos do empresário Daniel Soares, 40, e do aposentado Walmiro Ferreira, 77. Apesar de histórias completamente diferentes, os dois escolheram protagonizar suas vidas, chamando para si a responsabilidade de criar os filhos.

A superação

Para Walmiro Ferreira, esse trajeto pela estrada da vida foi mais difícil do que ele poderia imaginar. Natural de Coari, ele se mudou para Manaus aos 10 anos, deixado pelo pai para morar com um primo, na capital. Aos 18, saiu de casa novamente para trabalhar como servente de pedreiro e começar uma vida nova. Oito anos depois, veio o casamento e o início de uma família e de uma história que parecia ter tudo para ganhar um final feliz.

Porém, quando, depois de 19 anos de casamento, ele se viu sozinho, com cinco filhos para criar — Sérgio, Célia, Waldenice, Walmir e Paula —, Walmiro precisou lutar não só pelas crianças, como pela própria saúde. “Eu tive hanseníase, mas não podia parar. Enquanto eu me tratava, tive que trabalhar para colocar meus filhos para estudar. Trabalhei no mercado, carregando peixe, fui vendedor ambulante, vendi ‘kikão’ — termo amazonense para cachorro-quente — na rua, fiz o que foi preciso”, relembra.

Sem a oportunidade de uma educação completa, uma das principais preocupações de Walmiro era que os filhos tivessem uma realidade diferente. “Eu sofri muito na mão de uma madrasta, quando era pequeno, e estudei até o terceiro ano naquele tempo, então, para mim, era importante por meus filhos para estudar”, conta o aposentado. “Graças a Deus, nunca deixei que eles passassem fome e acho que consegui ser um bom exemplo. Eles me ajudaram muito, também, e sempre fomos só eu e eles. São a única família que eu tenho”, completa.

Hoje, os filhos cresceram e buscaram cada um a sua independência. Criaram suas próprias famílias, mas ainda conservam a unidade familiar. “Eu, agora, moro sozinho, eu e Deus. Meus filhos moram longe, cada um em um canto, só um deles que mora num espaço que eu construí nos fundos do terreno (Sérgio), mas eles vêm me visitar”, conta Walmiro.

Compartilhar para aprender
Há dez anos, o empresário Daniel Soares era ‘pai de fim de semana’, e o típico homem solteiro — a vida se resumia a trabalhar e sair para beber com os amigos, mal tinha móveis em casa porque não precisava deles, mas, de repente, tudo mudou, quando as duas filhas, de 7 e 8 anos, foram morar com ele.

“Quando elas chegaram, mudou tudo. Eu tive que contratar uma empregada, comprar móveis porque não tinha quase nada em casa e, principalmente, mudar o comportamento, porque, a partir daquele momento, eu seria pai diariamente, deixaria de ser aquele de fim de semana. E, claro, tinha muita coisa que eu não sabia fazer, como educar mesmo, o que falar, o que fazer, como lidar com escola e, mais tarde, com namoros, entre outras situações”, conta o empresário.

Sem saber como encarar as mais diversas situações do dia a dia, ele resolver criar o blog ‘Crônicas de um pai solteiro’ e compartilhar histórias sobre suas aventuras ora engraçadas, ora inusitadas, enquanto cuidava das filhas, Thais e Beatriz. “O blog nunca teve nenhuma intenção de ser um manual. Minha ideia sempre foi compartilhar as coisas que acontecem com a gente, as situações engraçadas, as dificuldades etc. E elas sempre tiveram uma relação muito boa com o blog, sempre incentivaram e curtiram muito”, relembra.

Hoje, aos 40 anos e pai de duas meninas, de 17 e 18, as histórias continuam e vêm forjando uma relação de parceria. “Recentemente, eu estive desempregado por um período e elas estavam na fase de fim de Ensino Médio, em uma escola particular. Claro que bate aquela dúvida, preocupação de como continuar sendo um esteio para elas em uma situação difícil, mas elas me apoiaram muito, sempre dizendo que seria algo passageiro e eu ia sair dessa. Nós conversamos muito, sobre tudo. A Thais, agora, foi para Belo Horizonte fazer faculdade, mas nos falamos todo dia e conversamos sobre, basicamente, tudo. Nossa relação é de amizade, uma parceria”, afirma o empresário.

O blog, que, lá no começo, foi uma maneira de dividir as dúvidas, os erros e acertos, enfrentou várias idas e vindas em uma década de existência, mas vai voltar, dessa vez, para ser um espaço não só do pai, como das filhas também. “A ideia é que nessa retomada, elas comecem a escrever também e vamos fazer uma coisa mais fixa, semanal ou quinzenalmente. Estou trabalhando com um webdesigner e vou lançar um post novo no Dia dos Pais, explicando sobre a volta do blog e retomar a partir daí”, explica, informando que o endereço novo é cronicasdeumpaisolteiro.com.br.

Frutos da escrita
Além da volta do blog, Daniel trabalha, ainda, em outros dois projetos que têm muito a ver com a experiência dele. “Não escrevia antes. Mas, depois dessa experiência do blog, tenho a intenção de, algum dia, compilar algumas histórias, algumas crônicas, e transformar isso em livro”, revela.

“Além disso, penso em escrever um livro, que vai se chamar ‘Elas e Eu’ e vai contar a história de um pai que se vê com a missão de criar duas filhas, narrando as várias fases do crescimento das crianças e dessa relação entre pai e filhas. Apesar de parecer com a minha história, será um trabalho de ficção”, completa.

Seja qual for a realidade, os pais que assumem a criação dos filhos sozinhos encaram realidades para as quais não foram preparados. Assim como as histórias são diferentes, não há fórmula mágica que defina certo e errado. Por isso, eles erram tentando acertar e acertam, às vezes, por acaso. A única coisa que eles podem garantir é que os filhos terão o melhor pai que eles podem ser.

De pais para pais

Para terminar, Daniel e Walmiro respondem a difícil tarefa de deixar um conselho para pais solteiros que, como eles, têm ou tiveram mais dúvidas do que respostas sobre a criação dos filhos:

“Quando se separar, não deixe os filhos jogados. Crie seus filhos, porque a melhor coisa que tem é o filho da gente. Tenha responsabilidade e faça o seu melhor por eles. E eu desejo saúde e felicidade nesse Dia dos Pais”, recomenda o aposentado.

“Para os que estão nessa situação eu diria que o exemplo não é a melhor forma de educar uma criança, é a única! Então, primeiro, que sejam exemplos, e, segundo, que tenham consciência de que os filhos não são seus. São da vida, do mundo. Apenas dê o máximo de si para que eles saibam lidar com o mundo sozinhos”, encerra o empresário.