Whole30: Trinta dias para mudar de vida

Amazonenses comentam os resultados do Whole30, programa alimentar que promete mudança total no estilo de vida

Gabriel Machado

Manaus – A busca por um estilo de vida mais saudável e pelo corpo dos sonhos resultou na criação de diversas dietas ‘malucas’ — umas comprovadamente seguras, outras nem tanto. Perambulando por estes dois diagnósticos está o desafio Whole30, um programa alimentar que promete trazer benefícios não somente à saúde e à estética, mas, também, ao campo emocional.

Desenvolvida pelo casal Dallas e Melissa Hartwig — que já atuou na área de nutrição esportiva, anatomia e fisioterapia —, a dieta, como o próprio nome já indica, tem a duração de 30 dias. Neste período, seus adeptos são ‘convidados’ a cortar o álcool, o açúcar, os grãos, as leguminosas, os laticínios e alguns outros aditivos da sua alimentação diária. Em outras palavras, ela promove uma mudança total de estilo de vida.

Em Manaus, alguns corajosos já se arriscaram no programa alimentar e contam, nesta edição da Revista PLUS, os principais benefícios adquiridos e, principalmente, os principais obstáculos que enfrentaram para cumprir o desafio.

O designer Rodrigo Abreu, de 25 anos, ficou sabendo do Whole30 através do box de crossfit onde treina. Na época, ele afirma que o local propôs a dieta em parceria com outros boxes pelo Brasil. “O próprio crossfit forneceu o acompanhamento de uma nutricionista durante o processo, mas, antes de iniciar, eu passei a ler blogs, artigos e livros sobre o desafio”, disse o designer.

De acordo com ele, as primeiras duas semanas do programa alimentar foram as piores — por conta do corte de açúcar. “Seu humor fica péssimo. Eu só queria um ‘pé’ para desistir”, explicou. “Você também corta a bebida alcoólica, então, em qualquer encontro com os amigos, festa ou reuniãozinha, a sua força de vontade é testada. A partir da terceira semana, você já está bem mais acostumado e nada te abala (risos)”.

Apesar das dificuldades, Rodrigo declara que, esteticamente, o benefício “é visível”. “Seu corpo desincha, o condicionamento melhora e o sono é muito melhor. A sensação é que, de fato, o seu corpo te devolve a melhor versão dele”, acrescentou. No próximo mês, ele fará novamente o Whole30. “Estou no processo de preparo para começar, já reduzindo o açúcar e evitando qualquer tipo de bebida alcoólica. Desta forma, quando começar, não sentirei tanto”, revelou.

O caso da cirurgiã dentista Eliane Avany, 25, é semelhante ao do designer: assim como Rodrigo, ela se esbarrou no desafio através do grupo de crossfit, em outubro de 2016. No início deste ano, a cirurgiã dentista voltou a fazer a dieta — devido aos ‘quilinhos a mais’ que ganhou durante a temporada de férias e festas de fim de ano. “Na primeira vez, tive o acompanhamento de um profissional (oferecido pelo crossfit). Já na segunda, fiz por conta própria, pois o Whole30 pede que você só coma comida natural, o que não é um problema para mim”, destacou.

Ela reforça que, antes de topar o desafio, precisou se organizar. “É um programa que pede isso, então, você tem que aprender a escolher bem o que come e onde comprar os alimentos permitidos pela dieta”. Ao final do Whole30, ela aponta que seus exames de rotina exibiram uma melhora significativa. “Alguns meses antes de fazer o desafio, eu havia realizado uns exames que apresentaram algumas alterações. Após o término dos 30 dias, eu refiz estes testes e eles mostraram uma melhoria significativa”, pontuou.

Além do progresso relacionado à saúde, Eliane aponta, também, algumas melhorias estéticas. “Na primeira vez que fiz, perdi muitas medidas, saí de um tamanho 40/42 para um 36/38. Desinchei bastante, minha pele melhorou muito e meu intestino ficou mais regular. Cheguei a pesar 59 kg, fiquei chocada”, ilustrou. “Só pensei em desistir nesta última vez que fiz o Whole30, pois, na primeira, éramos muitas pessoas fazendo e nos apoiando. Tínhamos um grupo no WhatsApp onde postávamos nossos pratos para ajudar os outros, porque tem hora que não temos criatividade para nada”.

Apesar da intensidade da dieta, a cirurgiã dentista aconselha às pessoas a encararem o programa. “É uma experiência única e desafiadora. Ao final, além de estar em uma dieta saudável, você terá um resultado estético legal. O desafio serve, também, para que a gente perceba que não é nenhum ‘bicho de sete cabeças’ manter uma alimentação mais sadia”, finalizou.

Reeducação alimentar

Diferentemente de Rodrigo e Eliane, a também cirurgiã dentista Larissa Alves, 24, não ficou tão satisfeita com os resultados do Whole30. Ela, que cumpriu o desafio em meados de 2017 — através do site oficial do programa alimentar —, sofreu com um impacto negativo da empreitada: o chamado ‘efeito rebote’.

“Não penso em fazer de novo. Eu saí de um 56/57 kg para 55kg. Foi uma perda boa, mas não tão significativa. Não valeu tanto o esforço”, justificou. “Outra parte negativa foi o ‘efeito rebote’. Quando você para de comer alimentos que gosta (no meu caso, pipoca), ao término da dieta, você só quer comer aquele alimento, pois sente muita falta”.

Ao invés de se aventurar pelo Whole30, Larissa aconselha as pessoas a procurarem fazer uma reeducação alimentar. “O efeito é mais a longo prazo”, defendeu. “O desafio é bom, talvez, para se desintoxicar, mas não como um estilo de vida, por conta não somente do ‘efeito rebote’, mas, também, pela abdicação de muitas coisas. No final, não vale a pena. A verdade é que temos que aprender a ter uma relação saudável com a comida e o Whole30 não vai te dar isso”, encerrou.

Opinião profissional

De acordo com a médica endocrinologista Gabriela Fonseca Oliveira, 29, assim como todas as dietas restritivas, o Whole30 pode não ser viável a longo prazo. “O desafio exige muita disciplina e planejamento das refeições com antecedência, para não sair do programa. Além da renúncia social”, afirmou a endocrinologista.

“O problema das dietas restritivas é sustentá-las a longo prazo e, principalmente, a sua transição quando o regime acaba, com a reintrodução dos alimentos que foram excluídos durante o período. Quando ela não é acompanhada por profissional habilitado e uma equipe multidisciplinar, as pessoas tendem a voltar aos velhos hábitos que culminaram com o ganho de peso, obesidade e doenças relacionadas ao mesmo, levando ao reganho e ao ‘efeito sanfona’”.

Assim como Larissa, a profissional orienta as pessoas a apostarem em uma reeducação alimentar, ao invés do Whole30. “O ideal não é fazer uma dieta da moda ‘X’ ou ‘Y’ e sim uma boa reeducação alimentar, com uma alimentação saudável, evitando alimentos processados e dando preferência aos alimentos naturais que podem ser de origem animal e vegetal”, indicou.

“Tudo tem que ser feito com equilíbrio, a não ser que você tenha alguma intolerância ou alergia alimentar. Não existem alimentos totalmente proibidos, mas sim que devem ser evitados ou consumidos com moderação. Devemos evitar essa relação de culpa de comer e medo da balança. Além de uma alimentação saudável, também, devemos praticar atividades físicas regulares e ter acompanhamento médico para avaliar a saúde como um todo e não somente as doenças”, completou.