Curso do ‘golpe’ na Ufam causa discussão

Professores falam sobre a proposta de instituição de um curso sobre “o golpe de 2016” - como é chamado pelos organizadores o afastamento da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), do poder

Manaus – O oferecimento de um curso na Universidade Federal do Amazonas (Ufam) sobre “o golpe de 2016” (como é chamado pelos organizadores o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) pelo Congresso Nacional) causou polêmica entre professores universitários do Estado: uns defendem a iniciativa e outros afirmam que o evento é muito recente para sofrer uma análise acadêmica.

Uns defendem a iniciativa e outros afirmam que o evento é muito recente para sofrer uma análise acadêmica. (Foto: Reprodução)

Na quarta-feira, o site da revista Veja informou que as universidades de Brasília (UnB), de Campinas (Unicamp) e do Amazonas (Ufam) irão oferecer disciplinas sobre o “golpe”. As Universidade Federal da Bahia (UFBA) e a Universidade Estadual da Paraíba (UEB) também devem oferecer.

Para o professor de Sociologia da Ufam, Luiz Antônio Nascimento, as universidades públicas têm autonomia para oferecer conhecimento crítico. “É a liberdade de cátedra que faz a universidade estimular a reflexão política. Neste sentido, é imperativo este tipo de discussão, porque se tem um fato histórico, social e econômico. Todos os fatos para derrubar a presidente, as ‘fake news’, a derrota do Aécio (Neves, ex-candidato do PSDB a presidente), a tentativa de derrubar a presidente nos tribunais, tudo é um fato categórico e indiscutível. O nome que queira se dá a isto é relativo”, afirmou.

De acordo com a professora da Ufam e pós-doutora em Ciências Sociais e Antropologia Iraildes Caldas, a disciplina pode ser vista como uma forma de informação para os estudantes, mas a avaliação das consequências do impeachment sem uma pesquisa adequada ou conhecimento científico, pode limitar a discussão.

Livre arbítrio

“Pode beirar a uma análise apressada, de senso comum, ativismo, numa perspectiva mais de denúncia do que procedimentos adequados na pesquisa e na ciência. Eu não estou dizendo que os professores (que oferecem o curso) estão errados. Em termos de informação, eles estão corretos, no entanto, eu acho que precisa haver ter um pouco mais de cautela para que a pesquisa aconteça e se tenha uma avaliação mais precisa. É claro que os professores têm razão no seu livre arbítrio, no livre ensinar, de oferecer esta disciplina”, disse.

O coordenador do programa de pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) Marcelo Seráfico afirmou que a discussão sobre o “golpe” é fundamental. “Não foi surpresa, não foi um raio em dia de sol azul, o golpe foi parte de um processo muito maior. Algumas pessoas cometem o equívoco de criticar o tratamento científico do golpe como se quem trata do golpe, está assumindo uma posição, antes de mais nada, político e ideológico. Quando, na verdade, esta compreensão não encontra nenhum lastro nos fatos objetivos. Aconteceu algo singular na história da República”, disse.

Segundo Seráfico, o fato do impeachment ter ocorrido a pouco tempo, não impede o estudo do processo. “Se nós levássemos isto a sério, não haveria análise de conjuntura. Não há dúvidas de que, no futuro, teremos condições de verificar, analisar as interpretações feitas hoje para ver em que medidas estavam próximas do que se configurou como realidade histórica”, afirmou.

Militância

Para o especialista em política da Universidade Presbiteriana Mackenzie de Campinas, Gerson Moraes, as pessoas que oferecem a disciplina são militantes e tem ambição política em impor na história do Brasil o impeachment da ex-presidente Dilma como um “golpe”.

“Do ponto do vista histórico, ainda estamos muito em cima dos episódios e não temos o distanciamento crítico necessário para fazer as devidas observações, porque estamos olhando um fenômeno que tem pouco mais de um ano e meio e gera muito oportunismo, porque se trata de colar este rótulo de que estamos vivendo um golpe, ou seja, que tudo isto é fruto de um golpe e que teremos a oportunidade de reverter isto. Sem dúvidas, estas pessoas têm lado e querem legitimar o discurso que eu acho que academicamente é frágil”, afirmou.

A reportagem tentou, sem sucesso, ouvir o professor César Augusto Queiróz, que irá ministrar a disciplina no Curso de História da Ufam. Em rede social, ele faz críticas ao governo do presidente Michel Temer e à Reforma Trabalhista.

Segundo reportagem da revista Veja, as universidades federais da Bahia (UFBA) e do Amazonas (Ufam) oferecerão disciplinas optativas enquanto a Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) oferecerá um curso livre, aberto a alunos e professores da instituição.

Na Ufam, o curso será mais amplo e, diferentemente dos demais, não deve se concentrar unicamente na saída da petista do poder. A previsão do professor da Ufam, que propôs o tema, é a de também abarcar o período ditatorial de Getúlio Vargas (1937-1945) e a deposição de João Goulart pelos militares, em 1964.

O ministro da Educação, Mendonça Filho (DEM) informou, nesta semana, que iria acionar órgãos de controle para apurar o que ele acusa ser “improbidade administrativa” (mal uso dos recursos públicos) na UnB, que ofertou a disciplina optativa ‘O golpe de 2016 e o futuro da democracia’ como parte da grade do curso de Ciência Política.

Na segunda-feira (26), o Comissão de Ética Pública da Presidência informou que o ministro teria dez dias para prestar esclarecimentos em processo que apura se ele cometeu abuso de autoridade no exercício do poder.

O processo foi aberto após denúncia do ex-reitor da UnB, José Geraldo de Sousa Junior. Ele alega que o ministro teve conduta irregular ao ameaçar “o livre exercício da docência pelo professor titular do Instituto de Ciência da Universidade de Brasília, Luis Felipe Miguel”.

A Ufam informou que os cursos têm autonomia para oferecimento de disciplinas e o caso não trata de assunto da esfera administrativa da instituição.