Esquema de Mouhamad algemava funcionário

O objetivo era manter o esquema criminoso com uso, inclusive, da estrutura da Secretaria de Segurança Pública do Estado (SSP), na época, na gestão do ex-governador José Melo

Manaus – Intimidações, violência e ameaças faziam parte do esquema montado pela quadrilha que desviou milhões da saúde do Amazonas, segundo as investigações da Polícia Federal (PF) no âmbito da operação ‘Maus Caminhos’. O objetivo era manter o esquema criminoso com uso, inclusive, da estrutura da Secretaria de Segurança Pública do Estado (SSP), na época, na gestão do ex-governador José Melo, cassado pela Justiça Eleitoral por compra de votos.

Inquérito da PF, ao qual a REDE DIÁRIO DE COMUNICAÇÃO (RDC) teve acesso, revela que o coronel da Polícia Militar (PM) Aroldo Ribeiro era responsável pela segurança do grupo criminoso, liderado pelo médico e empresário Mouhamad Moustafa. As informações estão nos autos do processo 11901-07.2017.4. 4.01.3200 em tramitação na Justiça Federal no Amazonas.

Mouhamad usava estrutura da polícia em benefício do crime (Foto: Eraldo Lopes)

Em depoimento à PF, o contador Gilmar Fernandes, que prestava serviços à empresa Salvare, revelou ter sido algemado e obrigado a assinar um acordo trabalhista diante de Mouhamad e, também, do coronel Aroldo.

Fernandes narra que “Mouhamad fez uma reunião onde participaram o interrogado, André, Priscila, Jennifer e vários policias seguranças de Mouhamad; que nessa ocasião o interrogado fez um acordo com Mouhamad no sentido de que iria vender sua casa e devolver o valor de R$ 100 mil, relativa a sua parte; que nessa reunião o interrogado ficou algemado e foi obrigado a assinar vários documentos, os quais nem pôde verificar exatamente o conteúdo, mas acredita que era relativo a acordos trabalhistas”, consta no inquérito.

De acordo com o relatório da PF , após o interrogatório violento ao contador, o médico enviou mensagens à ex-secretária executiva do Fundo Estadual de Saúde (FES) Keytiane Evangelista de Almeida, nas quais se gabava de ter tido um ‘dia de polícia’ e que havia desbaratado as pessoas que estavam desviando dinheiro da Salvare. O médico ainda enviou fotos e vídeos do interrogatório para ela, pedindo para Keytiane apagar tudo depois.

A ex-secretária Keytiane e Mouhamad foram presos no último dia 13 quando foi deflagrada a operação ‘Custo Político’, uma continuação da operação Maus Caminhos, iniciada em setembro de 2016.

De acordo com inquérito da PF, “o médico tinha a sua disposição não só uma equipe de segurança pessoal, o que é acessível a qualquer pessoa que tenha dinheiro, mas sim onze policiais civis e militares, investidos de suas prerrogativas funcionais, como no caso do coronel Aroldo”.

“Apesar de Mouhamad realizar grande parte de seus pagamentos em espécie, fez a utilização dos saques em espécie que serviam justamente para evitar que se rastreasse o dinheiro desviado, foi detectado, ao menos um depósito de R$ 120 mil para o chefe da segurança, o coronel Aroldo”, diz o relatório.

Polícia à disposição

Para a PF, por meio do coronel Aroldo, Mouhamad enviava suas ordens à equipe de policiais a sua disposição, “o que lhe fortalecia a sensação de poder e falta de limites”. Os seguranças da organização criminosa utilizavam a estrutura dos órgãos do Estado para obter informações favoráveis ao grupo. “Aroldo ainda fazia uso de sistemas restritos e investigações particulares. Numa dessas situações, tal como ocorreu em 22 de janeiro de 2016, Mouhamad envia para Aroldo a foto da placa de um veículo e pede para ele levantar as informações dos sistemas da polícia referentes ao veículo, frisando que quer ‘naquele estilo com todas as informações’”, diz a PF.

Segundo o inquérito, Aroldo, como chefe da equipe de segurança, razão pela qual exercia papel de comando dos policiais encarregados, realizava pagamentos da equipe, recrutamento de novos integrantes, exercia a função de contratação de policiais de outros Estados, tais como Alagoas, Bahia, Goiás, Rondônia, São Paulo, e se utilizava de seu cargo de coronel para fazer uso da PM do Amazonas, “seja para atividades mais simples como resolver um problema de acidente de trânsito, escolta de convidados e amigos pela cidade com a utilização de viaturas policiais e escolta por policiais militares, como no caso da viagem de Mouhamad a Tabatinga”, afirma o documento.