Lições nas ‘traves’ que viram ensinamentos para o público

Um dos principais nomes da ginástica brasileira, a paulista Daniele Hypólito ministrou palestras em Manaus e conversou com a REDE DIÁRIO DE COMUNICAÇÃO (RDC) sobre esporte, política e projetos

Antônio Barros Jr. / vencer@diarioam.com.br

Manaus – Hoje, aos 34 anos, a ginasta Daniele Hypólito segue sendo o principal nome do País na ginástica artística brasileira. Com 14 títulos nacionais e passagem por Olimpíadas, a paulista natural de Santo André se prepara para ter uma carreira fora dos ginásios tão vitoriosa quanto a que teve sobre ‘a trave’.

No currículo, são três participações em Jogos Olímpicos (Sidney, em 2000, Atenas, em 2004, e Pequim, em 2008) e talvez o principal resultado de sua carreira: a medalha de prata conquistada no Mundial de Gante, na Bélgica, em 2001, quando se tornou a primeira mulher do Brasil a conquistar esta marca.

Hoje, Daniele não esconde a sua preocupação com o futuro da ginástica. Estudante de Marketing da faculdade Estácio, a ginasta esteve em Manaus, nesta semana, para realizar um ciclo de palestras para jovens estudantes. Durante um rápido bate-papo com a equipe da REDE DIÁRIO DE COMUNICAÇÃO (RDC), Daniele falou sobre a próxima geração de ginastas, o futuro do esporte, política e sua carreira.

Daniele Hypólito (Foto: Estácio Amazonas/Divulgação)

Como você vê a próxima geração da ginástica artística do Brasil?

Tenho preocupação, mas vejo como esperança. Preocupação porque ainda falta apoio do País no esporte para que o atleta siga sem se preocupar em trabalhar ou em dividir o tempo de treino com trabalho. Dependendo da modalidade é difícil. A preocupação rola mais em apoio. Acho que precisaria ter uma divulgação maior da Lei de Incentivo ao Esporte. Já existe há alguns anos, mas é pouco divulgada e as empresas ficam com o pé atrás na hora incentivar.

Então, como marqueteira, falta uma campanha mais forte na divulgação da lei?

Sou aluna e é complicado. O atleta não consegue fazer treinamento e concluir a faculdade em quatro anos. O mais importante é não desistir do estudo. Tudo passa. O esporte passa. E os estudos nós levamos para a vida toda. É preciso estar sempre se atualizando. Precisamos estar sempre à frente do que se espera. O estudo é importante, principalmente, ligado aos meios de educação, como cultura e esporte, que são parte da educação.

Você acha que falta mais conhecimentos dos empresários para que abracem a Lei de Incentivo ao Esporte?

Falta mais campanha e os atletas de alto rendimento se empenharem em se voltar ao marketing da sua modalidade. Tem maneiras de divulgar o esporte, de divulgar a Lei de Incentivo ao Esporte para que a empresas entendam. É tão importante quanto apoiar um evento cultural. É onde você vai mudar a realidade do País. Se você pegar as potências esportivas, o incentivo é dentro do esporte. As pessoas se preparam para atingir certo ponto com apoio nessas três áreas (cultura, esporte e educação). A economia é importante, mas apoiar o desenvolvimento do esporte e do atleta também.

No último Campeonato Brasileiro, você teve uma apresentação perfeita na trave e atingiu uma marca de respeito com 14,650. Você está melhor que nunca?

(Risos) A marca é importante, mas precisamos achar que não é aquilo. Às vezes você acredita e estabiliza. Mas não é o meu caso. Por mais que, hoje, eu tenha noção que a minha idade exige mais um pouco de cuidado, eu não posso mais treinar como antes. Faço a mesma intensidade, mas não ultrapasso o limite. Eu já sei quando vou ter uma lesão, mas tudo isso sempre com a presença do nosso treinador. É importante entender que treinador não é nosso inimigo. Me esforço tanto quanto as mais novas. O que me dá essa longevidade é amar o que faço. As pessoas têm manias de querer parar as pessoas, mas quem dita nosso limite somos nós mesmos.

O que fazer no futuro após a aposentadoria?

Nesse momento, o futuro é pegar tudo que aprendi como atleta, juntar com a área que estou estudando e poder continuar ajudando o esporte da mesma maneira. Na prática, vamos aprender a teórica que falta para levar projetos pra frente. Porque você aprende como falar com as pessoas. Até porque não se trata uma criança como presidente. Você precisa ter a diplomacia para saber falar. E isso só se aprende lendo bastante, pois assim, você vai saber se posicionar e eu quero seguir por esse caminho. Levar o que aprendi com o alto rendimento, juntar com o marketing e executar projetos que são importantes.

Você cogita se candidatar a algum cargo eletivo ?

Não! É claro, que nessa eleição vi muito de fora. Confesso que não fazia à mínima ideia em quem votar. E também não vou revelar em quem votei (risos). Gosto e política não se discutem. É cada um com a sua opinião. São duas coisas que, quando o ser humano aprender que política e gosto não se levam a mesa, a gente vai ter uma convivência muito diferente. Vi muita gente brigando por conta de política. Famílias brigando por política. Claro que temos a preocupação. Como atleta, dependemos de cargos públicos para que o esporte se mantenha, mas na minha opinião, o que temos que fazer é, como população, é cobrar quem nós colocamos no poder.

Muito tem se falado sobre as mudanças no poder do Ministério do Esporte, como você vê essa decisão do novo presidente?

É só você voltar anos atrás. O Ministério do Esporte já existia dentro do Ministério da Cultura. Em nenhum momento houve um pronunciamento oficial. Vivemos no meio de tantas fake news que não dá pra acreditar. Talvez nem nesse mandato ele (o presidente eleito Jair Bolsonaro) consiga executar a proposta de governo dele. A mudança traz desconfiança, traz pé atrás. Todos estão com medo. Será uma mudança grande no País.